As jazidas petrolíferas do pré-sal: marco regulatório, exploração e papel da Petrobras moreCo-authored: Armando Dalla Costa |
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1
AS JAZIDAS PETROLIFERAS DO PRE-SAL: MARCO REGULATORIO,
EXPLORACAO E PAPEL DA PETROBRAS
Armando Joao Dalla Costa1
Elson Rodrigo de Souza-Santos2
RESUMO
Esse trabalho aborda as questoes relacionadas com a exploracao das jazidas petroliferas do
Pre-sal, que tern o potencial de alcar o Brasil ao rol de paises que detem as maiores
reservas petroliferas e sao grandes produtores e exportadores. No texto sao abordadas tres
questoes centrais. A primeira diz respeito a construcao das vantagens competitivas da
Petrobras e o seu papel ambiguo de empresa em busca de lucro e instrumento da politica
energetica do Estado brasileiro. A segunda e sobre a emergencia da intencao de alterar a
legislacao, os marcos regulatorios e criar um novo modelo de exploracao para reverter as
reservas petroliferas do pre-sal em beneficios para toda a sociedade. Por ultimo, como se
ensaia e a viabilidade da exploracao dessas reservas. Dessa forma, compreender quais sao
as ideias que gravitam em torno do Pre-sal e seu uso em beneficio da sociedade brasileira.
Palavras-chave: Pre-sal; petroleo; marco regulatorio; modelo de exploracao; Petrobras
THE OIL RESERVES OF PRE-SAL: REGULATORY MARK, EXPLORATION
AND ROLE OF PETROBRAS
ABSTRACT
This paper discusses the new possibilities that exploration of oil from the Pre-sal reserves
open to the Brazilian economy, which could become one of the largest oil producer and
exporter. Three key aspects are discussed in the paper. First, the role played by Petrobras
and its ambiguous position as a firm that seeks profits but which is at the same time an
instrument of the energy policy of the Brazilian government. The second is the emergence
of a debate on the legislation and rules that would be in place to organize oil exploration
and distribute its benefits to the whole society. Thirdly, it addresses the forms and viability
of oil exploration in these conditions. The paper thus aims to discuss whether the Pre-sal
could effectively produce benefits to the Brazilian society.
Key-works: Pre-sal; regulatory mark; exploration model; Petrobras
JEL Classification: L23; L51; L71
1 Doutor pela Universite de Paris III (Sorbonne Nouvelle) e P6s-Doutor pela Universite de Picardie Jules
Verne, Amiens. Professor no Departamento de Economia e no Programa de P6s-Graduacao em
Desenvolvimento Economico da UFPR. Coordenador do Nucleo de Pesquisa em Economia Empresarial
(www.empresas.ufpr.br) e-mail: ajdcosta@ufpr.br
2 Mestrando do Programa de P6s-Graduacao em Desenvolvimento Economico pela Universidade Federal do
Parana, membro do Nucleo de Pesquisa em Economia Empresarial - NUPEM. Bolsista do CNPq. E-mail:
elsonl29@gmail.com
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INTRODUCAO
Em novembro de 2008, a Petrobras em conjunto com o governo do presidente Luiz
Inacio Lula da Silva, anunciaram a descoberta de grandes jazidas petroliferas ao longo da
costa brasileira denominadas genericamente de Pre-sal. De acordo com os dados
preliminares, as estimativas indicam que as jazidas estao localizadas entre os litorais dos
estados de Santa Catarina e Espirito Santo, de dimensoes aproximadas de 800 Km de
comprimento e 200 Km de largura, a maior parte das reservas deve estar localizada abaixo
de uma lamina da agua de dois mil metros, seguida de mais tres ou quatro mil de subsolo
marinho. O montante de petroleo das jazidas e estimado em algo em torno de 100 bilhoes
de barris (bbl)3, que colocaria o Brasil entre os dez maiores produtores do mundo (Folha
Online, 2008). A area total estimada da reserva e de 112 mil Km2, onde 41 mil estao
concedidos para exploracao (Congresso Nacional, 2009, p. 21 - 22).
Dada a possibilidade do Brasil se transformar num grande produtor/exportador de
petroleo, o Presidente Lula passou a enfatizar em seus discursos os beneficios que as
jazidas do Pre-sal podem trazer ao o pais a medida que proporciona uma fonte de recursos
para os mais diversos programas de Estado, principalmente sociais e de educacao.
Simultaneamente, a Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, complementa as preposicoes
do Presidente ao afirma que o Brasil tern condicoes para tornar-se um exportador de
petroleo e derivados (Folha Online, 2008). Entretanto, a materializacao dessa visao passa
por novos marcos regulatorios para orientar o modo de exploracao, gestao dos recursos e
lide com a posicao ambigua da Petrobras entre a necessidade de satisfazer seus acionistas e
cumprir o papel de instrumento da politica energetica do Estado brasileiro.
Dessa forma, o objetivo do trabalho e analisar os desdobramentos da descoberta das
jazidas petroliferas do Pre-sal sob dois aspectos. No primeiro a influencia das vantagens
competitivas da Petrobras na exploracao de jazidas em aguas profundas e ultraprofundas
(tambem chamada de offshore). Para isso utilizada-se como base teorica o arcabouco
evolucionario, em especial para abordar o desenvolvimento da tecnologia para exploracao
de petroleo offshore. Em segundo lugar tratar das propostas mais em voga sobre os novos
marcos regulatorios, o papel da Petrobras e o conflito de interesses, recaindo sobre a
economia politica que permeia a discussao.
3 Uma unidade de bbl equivale a 159 litros.
3
O trabalho esta organizado em quatro partes. A primeira apresenta o referencial
teorico baseado na abordagem evolucionaria. A segunda trata resumidamente o que sao as
jazidas petroliferas do Pre-sal. A terceira aborda como a Petrobras construiu as suas
vantagens competitivas, especialmente em relacao a exploracao de petroleo offshore e as
suas manifestacoes em seu posicionamento de mercado. Por ultimo a discussao sobre os
novos marcos regulatorios, enfatizando os conflitos de interesses e o papel da Petrobras.
1 CONSIDERACOES TEORICAS SOBRE TECNOLOGIA E APRENDIZADO
Nessa secao sao apresentados os elementos da perspectiva evolucionaria que sao
usados na analise da construcao das vantagens competitivas da Petrobras frente as demais
petroleiras, principalmente a tecnologia de exploracao de petroleo offshore. Os elementos
utilizados na analise sao referentes a tecnologia, processo de aprendizado e como o
ambiente influencia a trajetoria de desenvolvimento de novas tecnologias.
Os conceitos sobre tecnologia utilizados no trabalho sao paradigma e regime
tecnologico, path-dependence e lock-in. De acordo com Dosi et al. (2002, p. 8-9), o
paradigma tecnologico pode ser definido por tres caracteristicas: (i) dizer o que e
tecnologia, ou seja, uma forma de conhecimento especifico utilizado em uma atividade
particular; (ii) dar uma visao de como as coisas sao ou devem ser feitas; e (iii) estabelecer
padroes modificados progressivamente ao longo do tempo. A trajetoria tecnologica esta
associada as oportunidades de inovacao internas a cada paradigma, mensuradas pelas
caracteristicas tecnico-economicas dos processos de producao (Dosi et al, 2002, p. 9). Os
regimes tecnologicos sao definidos por Dosi et al. (2002, p. 14) como sendo baseados em
propriedades industrials especificas que procuram melhorias tecnologicas e fontes de
conhecimento de naturezas proprias.
A definicao de path-dependence e lock-in e dada por David (1985). O autor afirma,
em primeiro lugar que as escolhas tecnologicas passadas reduzem as opcoes futuras devido
aos rendimentos crescentes da sua adocao. Em seguida refere-se ao aprisionamento a
certos padroes tecnologicos. Ambos os conceitos indicam que determinados padroes
tendem a ser preservados mesmo que surjam outros melhores. Para corroborar essa visao
David (1985) utilizou o exemplo da manutencao do padrao de teclado QWERTY, mesmo
com o surgimento de padroes mais adequados a digitacao no idioma ingles.
4
O avanco tecnologico esta entrelacado ao processo de aprendizagem e acumulo de
conhecimento. O processo de aprendizagem e usado para adquirir, assimilar e organizar
novos conhecimentos, onde a aquisicao de e um processo de extracao e estruturacao das
informacoes por meio dos mais diferentes canais (Hitt et al, 2009, p. 9). Em relacao ao
aprendizado, Malerba (1992) identificou seis axiomas, mas os dois principais sao learning
by doing e learning by using. O primeiro ocorre durante o processo de producao, tendo
como efeitos elevar a qualidade, reduzir custos e introduzir inovacoes incrementais. O
segundo e oriundo do uso do produto e traz informacoes para melhorar as praticas de
manutencao, operacao e introduzir inovacoes incrementais4. Adicionalmente, Dosi et al.
(2002, p. 11) observa que a literatura considera o conhecimento como local e cumulativo.
Local a medida que as novas tecnicas e arquitetura de produtos e provavelmente
semelhante ao usado pelos vizinhos. Cumulativo devido ao desenvolvimento tecnologico
corrente ser resultado das experiencias passadas, utilizadas para resolver problemas
especificos de cada epoca.
Todavia a compreensao da relacao entre economia e tecnologia passa pela
perspectiva co-evolucionaria que consiste em uma meticulosa identificacao do sutil
entrelacamento entre as janelas de oportunidades para a acao social e as tecnologias
disponiveis (Dosi et al, 2002, p. 34). Ou seja, a direcao e intensidade da evolucao
tecnologica tambem depende das necessidades e oportunidades proporcionadas pelo
ambiente.
Assim sendo, o ambiente impulsiona a emergencia de novos paradigmas
tecnologicos que geram oportunidade de inovacoes radicals atraves de novos
conhecimentos, pesquisas heuristicas e dominante design. Segundo Malerba (2005, p. 24-
26) os ingredientes para a ascensao de novos paradigmas sao: (i) ganhos de escala (por
exemplo, aprendizado); (ii) externalidades positivas na producao ou uso da tecnologia; (iii)
formacao de expectativas endogenas; (iv) alguma dinamica de mercado que seleciona
determinados produtos e, indiretamente, firmas e tecnologias; (v) progressivo
desenvolvimento de padroes e relativas instituicoes inerciais que personificam e
reproduzem formas particulares de conhecimento, normas de conduta e incentivos para tal.
4 Os outros quatro axiomas sao: learning by advances in science and technology e a incorporagao dos
avangos da ciencia e tecnologia proveniente de centros de pesquisa externos; learning from inter-industry
spillovers ocorre atraves da observacao e estudo do que as outras empresas estao fazendo; learning by
interacting e a troca de conhecimento entre empresas atraves da troca de informacoes; e learning by
searching e o conhecimento proveniente dos centros de pesquisa internos a empresa.
5
A respeito da inovafjao e evolmjao das industrias, Malerba (2005, p. 8) observa que
o processo de aprendizado dos agentes, baseados em conhecimentos especificos
caracteristicos de cada industria, ocorrem atraves da competi9ao e coopera9ao, as
interacoes internas e externas ao mercado, formais e informais de atores com diferentes
conhecimentos e competencias, dado um sistema especifico de instituicoes, resultando nas
transformacoes nao so dos produtos e processos, mas tambem dos atores, ligacoes,
institui9oes e conhecimento. Alem do mais Malerba (2005, p. 4-5) observa que os
ingredientes relacionados a evolu9ao da industria sao: (i) heterogeneidade dos agentes
devido a diferentes conhecimentos, competencias, processo de aprendizado que leva a cada
um tra9ar caminhos proprios; (ii) a influencia das universidades, os militares, atores
publicos e organiza9oes financeiras sobre a gera9ao e difusao de tecnologia; (iii) papeis das
diferentes institui9oes sao relevantes; (iv) industrias sao interpretadas como um sistema,
em que os atores tra9am diversos caminhos e as suas a9oes tern forte influencia sobre as
competencias, processo de aprendizado e conhecimento dos demais; e (v) cada industria
tern sua propria dinamica de inova9ao.
2 JAZIDAS PETROLIFERAS DO PRE-SAL
Em novembro de 2008, a Petrobras em conjunto com o governo Lula anunciaram a
descoberta de grandes jazidas petroliferas ao longo da costa brasileira denominadas
genericamente de Pre-sal. De acordo com as estimativas disponiveis estas reservas estao
localizadas entre os estados de Santa Catarina e Espirito Santo, de dimensoes aproximadas
de 800 Km de comprimento e 200 Km de largura, onde a maior parte esta localizada
abaixo de uma lamina da agua de cerca de dois mil metros, seguida de mais tres ou quatro
mil de subsolo marinho (ver Figura 1). O montante de petroleo das jazidas e estimado em
torno de 100 bilhoes de bbl que colocam o Brasil entre os dez maiores produtores do
mundo (Folha Online, 2008). A area total estimada da reserva e de 112 mil Km2, em que 41
mil estao concedidos para explora9ao (Congresso Nacional, 2009, p. 21-22).
6
FIGURA 1 - LOCALIZACAO DAS JAZIDAS PETROLIFERAS DO PRE-SAL
FONTE: Nepomuceno (2008)
A estimativa que o Pre-sal tem um montante de cerca de 100 bilhoes de bbl, alcaria
o Brasil como um dos dez paises com maiores reservas do mundo (ver quadro 1) ao elevar
as reservas atuais de 12 bi para mais de 100. Entretanto esse montante e uma estimativa
preliminar devido a dificuldade de verificacao, exigindo estudos mais detalhados. Algo
semelhante ocorre no quadro 1, construido com base nas informacoes publicas em janeiro
de 2008, mas que contem imprecisoes por que nao se sabe exatamente quanto cada pais
detem de reservas e nem sempre todas as tecnicamente provadas sao divulgadas.
QUADRO 1 - DISTRIBUICAO DAS RESERVAS DE PETROLEO CONHECIDAS: JANEIRO/2008
POSICAO PAIS RESERVAS (EM BI DE BBL)
1° Arabia Saudita 266,80
2° Canada 178,60
3° Ira 138,40
4° Iraque 115,00
5° Kuwait 104,00
6° Emirados Arabes Unidos 97,80
7° Venezuela 87,04
8° Russia 79,00
9° Libia 41,46
10° Nigeria 36,22
16° Brasil 12,18
FONTE: CIA (2009)
7
Alem do mais os envolvidos tern diferentes graus de cautela ao divulgar as
informacoes. Por exemplo, o campo de Tupi pertencente ao Pre-sal, licitado em 2008, a
Petrobras e governo estimam as reservas entre 5 e 8 bi de bbl, mas a socia britanica BG
Group e a portuguesa Galp, respectivamente com 25% e 10% do projeto, preveem reservas
de 12 a 30 (Folha Online, 2008). Ou seja existe uma grande diferenca entre as estimativas,
em que so pesquisas aprofundadas ao longo do tempo poderao esclarecer a real capacidade
do campo. Tambem e necessario considerar a qualidade do produto, custo de extracao e
perspectiva do mercado internacional para se ter uma melhor nocao da viabilidade
economico-financeira. Por exemplo, segundo o coordenador de exploracao e producao da
Petrobras Eduardo Molinari, estudos indicam que "as sismicas atuais que temos mostram
que existe uma boa continuidade" (Folha Online, 2008b). O que pode reduzir os custos de
extracao a medida que passa a ser necessario perfurar menos pocos que podem ser em
locais mais propicios e que apresentam menor dificuldade de operacao.
Outro aspecto do Pre-sal e que alem do petroleo deve haver uma grande quantidade
de gas natural, pois petroleo, gas e agua salgada costumam ser encontrados em conjunto
devido ao processo de formacao das jazidas. Porem estimar a quantidade de gas natural
presente no Pre-sal e mais dificil do que de petroleo devido a sua natureza gasosa.
Contudo, para se ter uma ideia Marco Tavares, diretor da empresa de consultoria Gas
Energy, considera que dada a relacao gas/61eo a producao de gas apenas no campo de Tupi
deve ser em torno de 120 milhoes m3 por dia, onde de 70 a 80 podem ser oferecidos ao
mercado e o restante utilizado para manter a estrutura em operacao. Assim, o campo de
Tupi sozinho tern a capacidade de dobrar a producao e oferta no mercado atual de gas
natural no Brasil, suprir o consumo de cerca de 60 milhoes de m3 e ser exportado. Se for
considerado todo o Pre-sal seguramente a producao de gas sera muito maior a ponto de
Marco Tavares dizer que "e uma quantidade maluca, nao vai ter mercado" (Agenda
Camara, 2008).
As duas principals areas de exploracao do Pre-sal sao a Cluster, na Bacia de Santos,
e Parque das Baleias, ao norte no litoral do Espirito Santo (ver Figura 1). A area Cluster e a
regiao de exploracao em maior evidencia e onde se concentram os investimentos atuais. O
Parque das Baleias e considerado pela Petrobras um novo polo de exploracao do Pre-sal,
tendo como vantagens a camada de sal menos densa com cerca de 200 metros, menor
lamina da agua e estar a apenas 80 km da costa (Congresso Nacional, 2009, p. 35-36).
8
3 PETROBRAS: VANTAGENS COMPETITIVAS E EXPANSAO
Nessa secao sao exploradas as vantagens competitivas da Petrobras e as suas
manifestacoes, enfatizando o aspecto da primazia da empresa na exploracao de petroleo
offshore em aguas profundas e ultraprofundas que e o caso do Pre-sal.
3.1 CONSTRUCAO DAS VANTAGENS COMPETITIVAS
Desde a criacao da Petrobras em 1953, sob o governo Getulio Vargas (1951-1954),
a empresa sempre manteve um centro de pesquisas ativo voltado para o desenvolvimento
de novas tecnologias aplicaveis as atividades petroliferas. Essas atividades podem ser
divididas em duas fases tendo como marco delimitador os Choques do Petroleo da decada
de 19705. Na primeira fase o objetivo dominante era criar conhecimentos ligados ao refino
e beneficiamento do petroleo. Na segunda, avancar na direcao da viabilizacao da
exploracao e producao de petroleo, sobretudo da modalidade offshore.
A primeira fase esta situada entre a formacao da Petrobras a decada de 1970, onde
o foco das pesquisas estava nas operacoes de refino {midstream), personificada no CENAP
(Center of Oil Upgrade and Studies) criado em 1955 embriao do atual CENPES (Leopoldo
Americo Miguez de Mello Research and Development Center) (Petrobras, 2009). Essa
opcao tern como justificativa o fato do petroleo apresentar baixo preco no mercado
internacional, facil acesso e oferta assegurada pelos paises do oriente medio. Dessa forma,
as pesquisas direcionadas as operacoes de refino preenchiam melhor as necessidades
energeticas do Brasil na medida em que permitiam ao pais desenvolver tecnologias para
refinar e beneficiar o petroleo importado a baixo custo.
A segunda fase tern inicio na decada de 1970 quando eclodem os Choques do
Petroleo, os precos aumentam, a oferta e reduzida e nao ha mais a facilidade de acesso. No
Brasil a reposta foi incentivar o uso de combustiveis alternatives como, por exemplo, o
etanol por meio do Programa Nacional do Alcool (Pro-Alcool) e, no setor petrolifero,
explorar as jazidas nacionais em busca da auto-suficiencia e da seguranca energetica
5 Os Choques do Petroleo podem ser sintetizados em dois fatos. O primeiro ocorreu em 1973 quando a
Organizacao dos Paises Exportadores de Petroleo (OPEP) comandada pelos arabes, detinha grande parte da
producao mundial de petroleo, promoveram deliberadamente o aumento de precos em virtude da retaliacao
ao apoio norte-americano e ocidental a Israel durante a Guerra do Yom Kippur (1973) resultando na vitoria
israelense sobre os paises arabes da regiao. O segundo ocorreu em 1979 com a desorganizacao da producao
petrolifera iraniana em virtude da emergencia de instabilidades politicas que levaram ao poder um governo
islamico anti norte-americano, agravado pela Guerra com o Iraque, outro importante produtor mundial, na
decada de 1980.
9
encampada pelo Estado. Assim, como observa Ortiz Neto (2006, p. 61) os indicios da
existencia de jazidas petroliferas no subsolo marinho nacional pela Petrobras,
especialmente na Bacia de Campos, passaram a ser vistas com uma das formas de se obter
a auto-suficiencia mas demandava grandes investimentos em capital fisico e,
principalmente, humano formado ao longo de um processo de aprendizado tecnologico.
Nesse contexto, apesar de existirem experiencias na exploracao de petroleo offshore desde
meados do seculo XIX nos Estados Unidos, eram insuficientes para viabilizar tecnica e
economicamente forcando a Petrobras a desenvolver tecnologia para possibilitar a
exploracao das jazidas em aguas territorials brasileiras.
E claro que o fato da Petrobras ser uma estatal responsavel, em parte pela politica
energetica, influenciou a reorientacao das suas pesquisa, enfatizando a exploracao e
producao de petroleo offshore como resposta as necessidades do pais e nao apenas em
busca de lucro. Alem do mais a sua criacao pela Lei 2.004 de 1953, durante o governo
Vargas e fruto da campanha nacionalista "o petroleo e nosso" lhe atribuia o monopolio do
refino, exploracao, producao e a missao de administrar as reservas petroliferas do pais. Isso
foi quebrado pela Lei n. 9.478 de 1997, na gestao Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)
que instaurou novos marcos regulatorios e criou a Agenda Nacional do Petroleo, Gas
Natural e Biocombustiveis (ANP) para regular o setor petrolifero6.
Assim sendo, fatores extra-tecnologicos e o ambiente co-evolucionario em que se
insere a Petrobras a levaram a tracar uma trajetoria tecnologica que a transformou em uma
especialista em exploracao de petroleo offshore, portadora de um conhecimento singular do
subsolo marinho brasileiro e que lhe proporciona enormes vantagens para a exploracao das
jazidas da regiao. Dessa forma corrobora o que autores como Dosi et al. (2002) e Malerba
(2005) argumentam no sentido de que e necessario levar em conta fatores extra-
tecnologicos e o ambiente co-evolucionario para explicar a intensidade e direcao do avanco
tecnico.
O inicio das pesquisas mais intensas voltadas para a exploracao de petroleo offshore
se deram em 1973 quando o CENPES comecou a adaptar tecnologia importada ao
ambiente, jazidas, geologia e condicoes de mercado (Petrobras, 2009). Em paralelo a
empresa firmava contratos de licenciamento junto a firmas estrangeiras experientes nesse
tipo de exploracao, em busca de transferencia de tecnologia que incluia estagios dos
engenheiros no exterior e difusao dos conhecimentos atraves de cursos internos (Ortiz
6 A legislacao atual e as discussoes sobre os novos marcos regulatorios serao tratados na secao 4.
10
Neto, 2006, p. 66). Dessa forma, fazendo uso dos axiomas do aprendizado denotados por
Malerba (1992), a Petrobras absorveu os conhecimentos disponiveis no mercado em
relacao a exploracao de petroleo offshore, mas insuficientes para viabilizar tecnica e
economicamente a maioria das jazidas petroliferas no subsolo marinho brasileiro. Isso
impulsionou-a a desenvolver sua propria tecnologia atraves do Programa de
Desenvolvimento Tecnologico de Sistemas de Producao em Aguas Profundas (PROCAP).
O primeiro PROCAP comecou em 1986 com o objetivo de melhorar a competencia
tecnica da empresa na producao de petroleo e gas natural em aguas com profundidade de
ate mil metros. A segunda versao foi lancada em 1993, denominada PROCAP-2000 -
Programa de Inovacao Tecnologica para Sistemas de Exploracao em Aguas Profundas,
cujo objetivo era viabilizar a exploracao dos novos campos com lamina da agua de cerca
de dois mil metros. Finalmente, a partir do ano de 2000, a Petrobras passou a trabalhar com
o PROCAP-3000 - Programa Tecnologico da Petrobras em Sistemas de Exploracao em
Aguas Ultraprofundas, voltado para viabilizar a exploracao de jazidas com laminas da agua
superiores a tres mil metros que e o caso do Pre-sal (Petrobras, 2009b).
Segundo a Petrobras (2009b), os objetivos especificos do PROCAP-3000, alem de
viabilizar a producao de aguas ultraprofundas, e reduzir os custos de extracao dos campos
em desenvolvimento de producao a profundidade de lamina d'agua acima de mil metros e
seu lifting cost. Sua execucao e realizada por meio de tres gamas de projetos sistemicos. O
primeiro e o "controle de pocos em aguas ultraprofundas" que visa elevar a seguranca e
reduzir os riscos relacionados a perfuracao de pocos de grande profundidade. O segundo e
a "complementacao inteligente para aguas ultraprofundas" consiste no sistema inteligente
que permite ao operador monitorar e controlar, em tempo real, no local ou em uma base
remota, a operacao do poco, possibilitando melhor gerenciamento. Por ultimo sao os
"fluidos leves em aguas profundas e ultraprofundas" que buscam neutralizar os entraves
tecnologicos de exploracao de jazidas acima de tres mil metros de profundidade. Por
exemplo, como retirar o petroleo e o gas, equipamentos necessarios, colher e processar os
dados geologicos.
Os PROCAP's representam um longo processo de aprendizagem da Petrobras na
exploracao de petroleo offshore. Fazendo o uso dos processos de learning by doing e
learning by using proferidos por Malerba (2002) na medida em que os pesquisadores
identificavam as necessidades e deficiencias dos equipamentos para viabilizar a
exploracao. Tambem e identificavel o carater cumulativo do conhecimento citado por Dosi
etal. (2002, p. 11), pois os PROCAP's nasceram da sucessao de conhecimentos adquiridos
11
anteriormente, em ultima instancia da transferencia de tecnologia.
3.2 MANIFESTAgAO DAS VANTAGENS COMPETITIVAS E EXPANSAO
A Petrobras nasceu uma empresa totalmente estatal, pensada para deter o
monopolio sobre exploracao, producao e refino de petroleo, operando mais como um
instrumento da politica energetica do pais do que como uma empresa em busca de lucro.
Porem, em 1997 ocorreu a alteracao no seu Estatuto Social para transforma-la em
sociedade mista, em que "... o controle da Uniao sera exercido mediante a propriedade e
posse de, no minimo, cinquenta por cento, mais uma acao, do capital votante da
Sociedade" (Petrobras, 2009c). Entre as motivacoes para aceitar socios privados pode ser
mencionada a necessidade de captar recursos para alavancar seus investimentos, sendo
intensificada a partir da legislacao de 1997. Dessa forma, paradoxalmente, a empresa
passou a aceitar acionistas privados para melhor cumprir a sua funcao de instrumento da
politica energetica nacional, mas tambem passou a considerar a remuneracao dos acionistas
e atracao de novos nas suas acoes.
Assim, a Petrobras obteve um salto nos seus lucros anuais de US$ 1,373 bilhao em
1997 para mais de US$ 13 bilhoes em 2007 (Petrobras, 2009d), a entrada do Brasil no
seleto grupo de 16 paises que produzem mais de um milhao de bbl por dia no ano de 1997
(Petrobras, 2009e). Em 2009 a companhia era a nona maior petrolifera do mundo,
considerando o valor de mercado e conforme o ranking da consultoria PFC Energy, atua
em mais de 27 paises com reservas estimadas em 15,1 bi de bbl. Alem disso pretende estar
entre as cinco grandes companhias de energia do mundo em 2020, contando com a
ampliacao de sua atuacao internacional nas areas de energia eletrica e biocombustiveis
(Petrobras, 2009f). Ainda, a Petrobras pode contar com uma posicao de dominio no
mercado nacional, tendo praticamente todas as refinarias e ser responsavel por quase toda a
producao petrolifera (ver quadro 2).
QUADRO 2 - NUMEROS DA PETROBRAS EM 2008
DADOS NUMEROS
Valor de Mercado - dezembro/2008 US$ 96 bilhoes
Postos de Abastecimento mais de 8 mil
Empregados - Junho/2009 75.240
Plataformas de Producao 112
Termoeletricas 18
Refinarias 15
Producao Media de Petroleo por dia (em bbl) 1.855
Investimento Planejado - 2009 a 2013 US$ 174,4 bilhoes
FONTE: Petrobras (2009f) e quadro construido pelos autores
12
A maior parte da posicao dominante da Petrobras sob o mercado brasileiro deriva
da sua posicao de monopolista oficial do setor por mais de 40 anos, pouco afetado pela
quebra o monopolio na decada de 1990. Entretanto o fim do monopolio acabou por
acelerar a sua expansao, em parte atribuido ao seu papel persistente de instrumento da
politica energetica nacional e principal meio para obter a auto-suficiencia na producao de
petroleo. Alem disso a partir da decada de 2000, passou a transformar-se em uma empresa
de energia, possuindo termoeletricas, dando apoio a producao de biocombustiveis e ao
crescimento do uso de gas natural na mercado interno. Ambos setores sao parte da politica
energetica nacional, mas nao quer dizer que deixem de ser mercados lucrativos e atraentes.
Sua fase monopolista oficial e instrumento da politica energetica do pais reflete-se
nas vantagens competitivas propaladas pela propria Petrobras (2009g): (i) posicao de
mercado dominante na producao, refino e transporte de petroleo e seus derivados no Brasil;
(ii) base de reservas significativas e crescentes; (iii) avancado conhecimento tecnologico
para exploracao de petroleo offshore; (iv) operacao integrada e em larga escala junto ao
mercado brasileiro que gera custos competitivos; (v) solida posicao no crescente mercado
interno de gas natural; e (vi) reconhecimento internacional e atracao de parceiros para
todos os ramos de atividades.
Em relacao a exploracao de petroleo offshore, a vantagem tres (iii) esta diretamente
ligada a seis (vi) por que petroleiras privadas, mesmo as gigantes Exxon e a Repsol,
preferem comumente se associar a Petrobras para viabilizar a exploracao das jazidas
colocadas a disposicao nas rodadas de concessoes promovidas pela ANP a partir da nova
regulamentacao de 1997 (ver quadro 3). O que pode ser explicado por dois motivos. Um e
o fato da Petrobras ser a companhia que melhor conhece o potencial das jazidas
petroliferas das aguas brasileiras, mesmo que os dados sejam disponibilizados, as outras
nao conseguem ter o mesmo grau de conhecimento. O outro e que a Petrobras domina uma
tecnologia singular e de ponta para viabilizar a exploracao de petroleo offshore em aguas
profundas e ultraprofundas a um custo menor. Dessa perspectiva, cooperar aparece como
uma forma de reduzir riscos e aprender com a Petrobras a sua tecnologia de exploracao,
fazendo o uso dos axiomas do processo de aprendizado citados por Malerba (1992). Alem
disso, a Petrobras se beneficia, pois divide os custos de investimento com suas parceiras.
O quadro 3 apresenta a composicao dos consorcios que venceram a nona rodada de
concessoes em 2007 para explorar parte da area Cluster (ver Figura 1) pertencente ao Pre-
sal, ainda sob a legislacao aprovada em 1997. Cabe ressaltar que as vantagens competitivas
da Petrobras na exploracao offshore a levaram a participar de todos os blocos.
13
QUADRO 3 - CONSORCIOS PARA EXPLORACAO DA AREA CLUSTER DO PRE-SAL
BLOCO NOMEANP OPERADOR SOCIOS
BM-S-8 Bem-te-vi Petrobras (66%) Shell (20%) e Petrogal (14%)
BM-S-9 Carioca Petrobras (45%) BG (30%) e Repsol (25%)
BM-S-10 Parati Petrobras (65%) BG (25%) e Partex (10%)
BM-S-11 Tupi e Iara Petrobras (65%) BG (25%) e Petrogal (10%)
BM-S-17 n/a Petrobras (100%) n/a
BM-S-21 Caramba Petrobras (80%) Petrogal (20%)
BM-S-22 n/a Exxon Mobil (40%) Petrobras (20%) e Amerada (40%)
BM-S-24 Jupiter Petrobras (80%) Petrogal (20%)
BM-S-42 n/a Petrobras (100%) Petrobras (100%)
BM-S-50 n/a Petrobras (60%) BG (20%) e Repsol (20%)
BM-S-52 Corcovado Petrobras (60%) BG (40%)
FONTE: Formigli (2007) e quadro construido pelos autores
Outro aspecto das vantagens competitivas da Petrobras e o impulso dado ao
processo de internacionalizacao de suas atividades, especialmente usando sua tecnologia
em exploracao de petroleo offshore para explorar jazidas em outras regioes do mundo. Tal
como observam Dalla Costa e Pessali (2007), a empresa passou a atuar na exploracao de
petroleo offshore em paises, por exemplo, tao diferentes quanto Colombia, Angola, Ira,
Paquistao e Portugal.
4 NOVOS MARCOS REGULATORIOS, MODELO DE EXPLORACAO E PAPEL
DA PETROBRAS
Nessa secao sao abordadas as propostas preliminares sobre os novos marcos
regulatorios e modelo de exploracao que emergiram a partir das descobertas das reservas
petroliferas do Pre-sal. Contudo a palavra "preliminares" significa que em linhas gerais
essas questoes ja tomaram forma, mas ainda exigem intensas e prolongadas discussoes
para a sua transformacao em Lei e implementacao. Assim sendo, na primeira parte sao
abordadas as novas regulamentacoes e modelo proposto, na segunda, a necessidade de
investimentos e o papel da Petrobras para transformar as reservas petroliferas em uma
riqueza palpavel para a sociedade brasileira.
4.1 NOVOS MARCOS REGULATORIOS
A atual legislacao que regulamenta a exploracao, producao e refino de petroleo e
gas no Brasil teve origem na alteracao da Constituicao Federal de 1988, por meio da
Emenda Constitucional n. 9, de 9 de novembro de 1995, ocorrida no primeiro ano da
gestao Fernando Henrique, em meio a uma serie de reformas que reduzissem o grau de
14
intervencao do Estado brasileiro na economia. A Emenda permitiu que a Uniao contratasse
empresas estatais e privadas para exploracao de petroleo e gas natural, mas abria caminho
juridico para uma ampla reforma na legislacao do setor. Isso ocorreu com a Lei n. 9.478, de
6 de agosto de 1997, tambem conhecida como "Lei do Petroleo" que implantou uma nova
regulamentacao do setor, retirando o monopolio da Petrobras, incentivando a competicao e
investimentos privados, a criacao de instituicoes que gerissem o setor em substituicao a
Petrobras, como o Conselho Nacional de Politica Energetica (CNPE) e a ANP.
Em relacao a exploracao a Lei do Petroleo retirou da Petrobras o monopolio sobre
as reservas petroliferas do pais e implementou o sistema de rodadas de licitacao, em que a
empresa que oferece maior valor por certa area de exploracao oferecida obtem o direito de
explora-la por 30 anos (Agenda Camara, 2008b). Esse aspecto do modelo e criticado pelo
Congresso Nacional (2009. p. 27-28) exposto no seu caderno de Altos Estudos, em relacao
ao fato do Estado ter o seu monopolio sobre o produto explorado limitado por duas razoes
correlatas. Uma e que o Estado nao tern a propriedade e nem participacao no produto
extraido, o que leva a reducao de sua receita potencial referente a exploracao.
Na epoca em que o modelo de rodadas de licitacao foi concebido fazia sentido e era
condizente com o tipo de reservas petroliferas que se julgava existir no pais, ou seja,
poucas e de elevado risco. Entretanto o advento das grandes reservas do Pre-sal e
consideradas de baixo risco, levam o modelo atual a ser inadequado na medida que limita
as receitas obtidas pela Estado e o dominio sobre o produto extraido. Dessa forma, como
argumenta o estudo do Congresso Nacional (2009), mantido o modelo atual o Estado teria
como receita advinda de tributes e participacoes na exploracao do Pre-sal uma cifra em
torno de 23% contra cerca de 78% do modelo Noruegues.
Por isso quando o CNPE recebeu as informacoes da Petrobras em novembro de
2007 de que testes apontavam a existencia de grandes volumes de petroleo e gas de alto
valor comercial que, caso confirmados, seriam os maiores do mundo localizados numa area
denominada Pre-sal, decidiu tomar medidas preventivas e preparar a readequacao da
legislacao. Primeiramente instruiu a ANP retirar da 9a Rodada, marcada para o fim de
novembro de 2007, 41 blocos e concluir a 8a Rodada dependendo da avaliacao sobre 10
blocos, ambos de alto potencial exploratorio e pertencentes as "franjas" do Pre-sal. Alem
de iniciar medidas para preparar a alteracao dos marcos legais e modelo de exploracao,
especialmente prevendo o contrato de partilha (ANP, 2008).
Em linhas gerais, os novos marcos regulatorios possuem um desenho preliminar
verificado na audiencia publica da ANP (2008) no Senado Federal, em junho de 2008, e no
15
Caderno de Altos Estudos Estrategicos do Congresso Nacional (2009). Finalmente, em 31
de agosto de 2009, o governo Lula oficializou quais as propostas de Lei para readequar a
legislacao a ser enviada para aprovacao e discussao no Legislativo Federal, nao e a versao
final, mas delineia o que e a nova regulamentacao. Assim sendo, o discurso da Ministra da
Casa Civil, Dilma Rousseff (2009) apresenta os quatro pontos fundamentals da proposta:
producao partilhada; criacao de uma empresa estatal para gerir os contratos; criacao de um
fundo para reaplicar os recursos advindos da exploracao; e fortalecer a Petrobras.
Segundo a ANP (2008), o contrato de partilha da producao e aplicado
principalmente em paises com grandes reservas, onde Pais-hospedeiro (a Uniao), atraves
de uma entidade inteiramente sua, totalmente estatal, contrata empresas para exploracao e
producao. O produto extraido pela empresa e de propriedade da Uniao, onde a empresa
contratada recebe a sua porcentagem em oleo ou moeda, de acordo com o contrato,
levando em conta tributos e participacoes governamentais.
A entidade estatal citada e uma empresa publica que tern a funcao de gerir os
contratos com as firmas que realizam a exploracao e producao, defendendo os interesses do
Estado sem a intervencao de acionistas privados. Alem do mais como e uma
administradora de contrato, nao tern mais que cem empregados e ocupa uma estrutura
modesta. Na proposta do governo Lula, a empresa se chama Petrosal, justificada pela
Ministra Dilma Rousseff (2009) como sendo um tipo de instituicao comum nos grandes
produtores de petroleo, envolvidos na administracao de cerca de 77% das reservas
mundiais.
O fundo e utilizado para a aplicacao dos recursos que o Estado obtem com as
jazidas petroliferas em acoes que tragam beneficios a toda a sociedade, melhorem a
estrutura e competitividade do pais e o fortaleca frente a instabilidades financeiras
mundiais. No caso do Pre-sal, segundo a Ministra Dilma Rousseff (2009), esse fundo e
denominando de "Fundo Social" com os mesmos objetivos citados, fiscalizado pelo
Legislativo, afastando a maldigdo do petroleo. A maldicao tambem e chamada "doenca
holandesa" que gera a desorganizacao da economia do pais rico em petroleo a medida que
ocorre a valorizacao cambial derivada da entrada de divisas originada da exportacao de
petroleo bruto.
O tripe formado pelo contrato partilhado, empresa publica e Fundo proposto pelo
governo Lula tern forte inspiracao no modelo noruegues, como previsto no estudo do
Congresso Nacional (2009). A empresa publica norueguesa se chama Petoro, criada em
2001, tern no maximo 60 empregados, fiscalizada pelo Parlamento. Os recursos obtidos
16
sao destinados ao fundo soberano Government Pension Fund, tambem alimentado pelos
impostos sobre a producao de petroleo e parcela dos lucros da empresa de economia mista
StatoilHydro, a equivalente norueguesa da Petrobras (Agenda Camara, 2009).
Todavia, a Ministra Dilma Rousseff (2009), enfatiza que a intencao do governo
Lula e reformar a legislacao, mas os contratos lavrados na atual legislacao serao
respeitados. Isso tern como justifica fornecer a seguranca juridica para nao espantar
possiveis investidores privados que tambem devem desempenhar um papel importante para
a exploracao e beneficiamento do petroleo. Alem do mais a estrutura necessaria apenas
para a exploracao deve demandar recursos da ordem de US$ 600 bi que dificilmente so a
Petrobras e Estado brasileiro terao condicoes de arcar.
O fortalecimento da Petrobras e uma necessidade, pois e a que melhor conhece a
geologia da regiao e detem capacidade para viabilizar a exploracao de petroleo e gas em
aguas profundas e ultraprodundas. Na proposta do governo (Rousseff, 2009), a Petrobras
tera uma participacao minima em todos os projetos de exploracao, propostos
preliminarmente em 30%, sendo reservado ao Estado leiloar o direito de exploracao ou
concede-lo diretamente a Petrobras. Onde a vencedora desses leiloes oferecerem maior
percentual da producao a Uniao, a Petrobras acompanhara esse percentual. Nao sendo
descartada a cobranca de bonus na assinatura do contrato e a incidencia de royalties
segundo a Lei do Petroleo (Petrobras, 2009h).
A opiniao das petroleiras privadas sobre as mudancas na legislacao, em linhas
gerais, sao negativas. O que pode ser sintetizado na declaracao do Instituto Brasileiro de
Petroleo, Gas e Biocombustiveis (IBP) que defende "a manutencao, com alguns ajustes, do
modelo de concessao atual - competitivo, transparente e estavel". A entidade representa as
principals companhias do setor petrolifero brasileiro, incluindo Repsol, BG e Exxon Mobil
(Ultimo Segundo, 2009). A negativa dessas petroleiras pode ser explicada pela perda de
receita devido a maior participacao do Estado, conjugado com a menor autonomia na
administracao do produto extraido. O que nao quer dizer que os investimentos no Pre-sal e
no beneficiamento do oleo em territorio nacional deixem de ser atraentes, como nao
deixaram de investir em paises com legislacoes no mesmo formato, por exemplo, a
Noruega.
17
4.2 EXPLORACAO E PAPEL DA PETROBRAS
As reservas petroliferas so podem ser revertidas em beneficio do pais se forem
exploradas e comercializadas. Para isso sao necessarios grandes investimentos na estrutura
a fim de viabilizar a exploracao e que crescem proporcionalmente em relacao a dificuldade
de extracao. Tambem e preciso levar em conta questoes como estabilidade institucional e
politica energetica. Assim, como mostra o quadro 4, ao comparar os paises que detem as
maiores reservas petroliferas com os maiores produtores, nota-se discrepancia
significativa.
QUADRO 4 - COMPARACAO ENTRE RESERVAS E PRODUCAO DE PETROLEO: 2007/2008
POSICAO PAIS RESERVAS (EM BI DE BBL) POSICAO PAIS PRODUCAO (EM MI DE BBL POR DIA)
1° Arabia Saudita 266,80 1° Russia 9,980,000
2° Canada 178,60 2° Arabia Saudita 9,200,000
3° Ira 138,40 3° Estados Unidos 8,457,000
4° Iraque 115,00 4° Ira 4,700,000
5° Kuwait 104,00 5° China 3,725,000
6° Emirados Arabes Unidos 97,80 6° Mexico 3,501,000
7° Venezuela 87,04 7° Canada 3,425,000
8° Russia 79,00 8° Emirados Arabes Unidos 2,948,000
9° Libia 41,46 9° Uniao Europeia 2,676,000
10° Nigeria 36,22 10° Venezuela 2,667,000
16° Brasil 12,18 15° Brasil 2,277,000
FONTE: CIA (2009) e CIA (2009b), quadro construido pelos autores
Os casos mais emblematicos sao dos Estados Unidos, China e Iraque. Os Estados
Unidos e a China nao figuram se quer entre as dez maiores reservas, mas ocupam,
respectivamente, a terceira e quinta posicoes em relacao a producao. Uma das explicacoes
e que para esses paises o petroleo e encarado como um insumo vital para sua matriz
energetica e funcionamento de sua economia. Dessa forma, incentivar a producao interna
figura como maneira de garantir parte das suas necessidades de petroleo, dando maior
margem de manobra para negociar com os paises fornecedores. Portanto, mesmo sendo
mais custoso explorar as suas jazidas petroliferas, explora-las faz parte da politica de
seguranca energetica do pais. A mesma logica pode ser aplicada ao Brasil, apresentada ao
longo da secao 3, que desde a decada de 1970 tern uma politica energetica de incentivo a
producao interna de petroleo e a busca pela auto-suficiencia.
O Iraque detem a quarta maior reserva petrolifera, mas nao aparece nem entre os
dez maiores produtores. A justificativa mais evidente diz respeito a instabilidade politica
18
resultante da Guerra do Iraque, iniciada em 2003, e subsequente ocupacao por tropas norte-
americanas e de seus aliados, desorganizando a estrutura de producao. Outro motivo, mais
profundo, esta relacionado a instabilidade derivada da fragilidade do Estado-nacao,
fortalecido artificialmente com as divisas e poder advindos da exportacao de petroleo, tido
como principal ou unico produto relevante. Dessa forma, os grandes consumidores de
petroleo, especialmente os Estados Unidos, agem tanto politica quando militarmente para
garantir alguma estabilidade e o apoio desses paises, tambem como parte da sua estrategia
de seguranca energetica.
A maioria das reservas do Canada sao formadas por areia beguminosa, uma massa
viscosa e grudenta, localizada na provincia de Alberta, nas proximidades do Circulo Polar
Artico, abrangendo uma area do tamanho da Grecia. O potencial petrolifero dessas areias
nao e novidade, mas so na decada de 2000 com o advento de novas tecnologias e aumento
do preco do petroleo, a sua exploracao se tornou viavel, atraindo grandes petroleiras como,
por exemplo, a norte-americana Exxon Mobil e a francesa Total, apesar do produto ser de
ma qualidade e custar cerca de US$ 30 o barril (dados de 2006), o mais alto do mundo.
Ademais, o processo de extracao do oleo tern um impacto ambiental assustador. Tanto que
estima-se que ate 2015, a regiao deve produzir tanto dioxido de carbono quanto a
Dinamarca, para cada barril produzido sao consumidos ate cinco de agua e ocorre a
producao de uma caldo toxico armazenado em lagos gigantes (BiodieselBr7, 2006).
A existencia de tipos de solos que permitem a extracao de petroleo nao e uma
exclusividade do Canada. Outros paises detem grandes reservas de uma rocha oleifera
denominada rocha xistos, mas potencialmente mais dificeis de retirar oleo que a areia
canadense, onde a lideranca e dos Estados Unidos seguido pelo Brasil. Inclusive a
Petrobras (2009i) mantem uma divisao especializada em xisto, a Petroxis, que busca
formas viaveis economica e ambientalmente para sua exploracao em larga escala. Contudo,
dadas as dificuldades e custos envolvidos, a extracao de petroleo das jazidas tradicionais,
mesmo que localizadas em lugares ermos e de maior custo de extracao como e o caso do
Pre-sal, ainda sao muito atraentes.
Segundo o estudo do Congresso Nacional (2009, p. 45-46), o custo medio de cada
bbl extraido do Pre-sal deve ser em torno de 50% superior aos reservatorios localizados
acima da camada de sal que sao de cerca de US$ 10. Assim sendo, o custo de cada bbl do
Pre-sal deve ser em torno de US$ 15 em comparacao com o custo de 30 (dados de 2006)
7 Originalmente publicando pelo jornal alemao Der Spielgel.
19
do originario da areia beguminosa canadense, considerando ainda que o do Pre-sal e um
produto de qualidade e da areia beguminosa nao. Entretanto, nos primeiros pocos em testes
de producao do Pre-sal nas reservas de Tupi, segundo o presidente da Petrobras, Sergio
Gabrielli, os custos sao de US$ 45 (Gl, 2009), mas devem cair a medida que a exploracao
se consolidar e os problemas encontrados forem equacionados.
Em termos agregados, apenas a perfuracao de cada poco petrolifero no Pre-sal com
profundidade de seis a oito mil metros custam em media US$ 200 milhoes, mas
considerando toda a estrutura necessaria o valor do investimento sobe para algo em torno
de US$ 600 bi (Gazeta do Povo, 2009). Para fazer frente a essa demanda por
investimentos, o governo Lula planeja fortalecer a Petrobras por meio da captacao de
recursos no mercado e aumento do seu capital social, mas o como sera feito permanece
indefinido (Gl, 2009). Contudo, o Estado brasileiro e o Banco Nacional de
Desenvolvimento Economico e Social (BNDES), devem dar suporte ao aumento de
investimentos da Petrobras.
Outra faceta dos investimentos e criar uma rede de fornecedores de bens e servicos
ligados a exploracao do Pre-sal para sanar o problema enfrentado pela Petrobras de
escassez de servicos, tecnologias, equipamentos e toda uma cadeia de fornecedores para
explorar as reservas do cluster de Santos. A ideia preliminar proposta pelo BNDES e reunir
toda a estrutura em um mesmo municipio, nos moldes da cidade americana de Houston e
outros exemplos encontrados na Noruega e na Coreia (JB Online, 2009). Alem do mais
existe a necessidade de criar novas solucoes para problemas como, por exemplo, extrair e
transporter o gas natural para terra firme (Agenda Camara, 2008).
Dados os investimentos planejados na exploracao do Pre-sal, a Petrobras espera
praticamente dobrar a sua producao de petroleo entre 2009 e 2019 chegando a uma volume
proximo a 4 milhoes de bbl dia (ver grafico 1). Considerando o ranking atual de maiores
produtores (ver quadro 4), o Brasil estaria seguramente entre os dez maiores. E claro que
isso e para mero efeito de comparacao, pois nos proximos dez anos a producao dos demais
paises tambem deve crescer. No entanto, tambem e preciso considerar a exploracao
efetuada por outras petroliferas e que devem levar a producao a ser maior.
20
GRAFICO 1 - CRESCIMENTO PLANEJADO DAPRODUCAO DE PETROLEO DAPETROBRAS: 2009
-2019 (EM BBL POR DIA)
4.500
4.000
3.500
3.000
2.500
2.000
1.500
1.000
500
0 r
2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
FONTE: Estadao (2009), grafico constrmdo pelos autores
Contudo, como expresso no estudo do Congresso Nacional (2009) e discurso da
Ministra Dilma Rousseff (2009), a intencao e que o Brasil transforme-se nao apenas em um
grande produtor/exportador de oleo bruto, mas tambem que esse produto seja refinado em
territorio brasileiro antes de ser exportado pela Petrobras e outras petroleiras. Para
incentivar investimentos nesse sentido o estudo do Congresso Nacional (2009) sugere que
sejam introduzidas medidas fiscais que desencorajem a exportacao de oleo cru, ao mesmo
tempo que incentivem investimentos em novas plantas de refino e beneficiamento no
Brasil. Isso pode refletir na existencia de refinarias pertencentes a outras companhias que
nao a Petrobras, tambem elevando as receitas do Estado e refletindo em beneficios
regional s.
Como apresentado na secao 2, as reservas petroliferas do Pre-sal tambem devem
estar acompanhadas de gas natural. Porem o problema tecnico e como trazer o gas para
terra firme a fim de ser utilizado como insumo energetico de forma viavel. Uma das formas
propostas por Marco Tavares, da consultoria Gas Energy, e a instalacao de plantas de
liquefacao do gas em alto-mar para viabilizar o transporte em navios ate os terminals onde
seria distribuido para o resto do pais (Agenda Camara, 2008). Outra forma seria a
21
instalacao de termoeletricas em alto mar, em que a energia seria transportada para o
continente atraves de cabos submarinos, mais viavel do que tubulacoes para transporte de
gas devido e elevada profundidade e pressao. Alem do mais a exportacao de gas por meio
de navios e uma operacao custosa por exigir uma estrutura mais sofisticada devido ao seu
carater gasoso do que o petroleo e seus derivados que sao liquidos. Assim, a tendencia e
que o gas do Pre-sal desempenhe um papel relevante na matriz energetica brasileira,
tambem considerando que a extracao de petroleo e indissociavel do gas.
CONSIDERACOES FINAIS
Nesse trabalho foram abordados os aspectos relacionados a exploracao, novos
marcos regulatorios e papel da Petrobras na exploracao das jazidas petroliferas do Pre-sal.
Essas jazidas tern o potencial de alcar o Brasil no seleto grupo de detentores das maiores
reservas do mundo, como tambem, dos maiores produtores e exportadores. Entretanto, essa
nova posicao brasileira em relacao ao petroleo exige novos marcos regulatorios, modelo de
exploracao, polpudos investimentos em exploracao e beneficiamento, mecanismos que as
transformem em beneficio para a sociedade como um todo.
A Petrobras nao e apenas uma empresa petrolifera com participacao estatal, mas
tambem um instrumento da politica e seguranca energetica brasileira. Desde sua criacao,
direciona seus esforcos de pesquisa e investimentos para fazer frente as necessidades
energeticas do pais. Assim, a partir da decada de 1970 com o advento dos Choques do
Petroleo, a empresa passou a investir na producao de petroleo em territorio nacional a fim
de reduzir os riscos da interrupcao do fornecimento dos paises produtores potencialmente
instaveis. Isso desenvolveu uma capacidade singular de explorar jazidas petroliferas no
subsolo marinho e um conhecimento impar da geologia das reservas brasileiras, lhe
fornecendo grandes vantagens competitivas em relacao as demais companhias que podem
atuar no Pre-sal.
As discussoes sobre os novos marcos regulatorios foram originadas pela descoberta
das reservas do Pre-sal a fim do Estado obter maiores ganhos com a exploracao e controle
sobre o produto explorado, tal como ocorre em paises que detem grandes reservas como a
Noruega, por exemplo. Assim, tanto o governo Lula quanto o Congresso nacional sugerem
mudancas que introduzam na legislacao atual o contrato de producao partilhada, a criacao
de uma empresa estatal para administrar os contratos e um Fundo para transformar as
receitas em beneficios para o pais, semelhante ao modelo noruegues. Alem do mais a
22
Petrobras tera um papel preponderante na exploracao por ser a companhia mais capacitada
na extracao de petroleo off-shore. Entretanto, as petroleiras privadas denotam certa
resistencia na medida que essas acoes restringem os seus ganhos em relacao ao modelo de
rodadas de licitacao inaugurado pela Lei do petroleo de 1997, mas nao quer dizer que a sua
exploracao deixe de ser atraente.
A exploracao das reservas do Pre-sal demanda grandes investimentos na ordem de
US$ 600 bi e um custo medio de extracao de cada bbl 50% maior que o da camada P6s-sal.
Contudo, o produto e de qualidade e o custo economico e ambiental e significativamente
menor do que formas alternativas de se obter petroleo como, por exemplo, das areias
beguminosas do Canada. Alem do mais a estabilidade politica brasileira pode fomentar a
ideia de ser um fornecedor de petroleo e de outros derivados, confiavel no mercado
internacional impulsionando os investimentos de petroliferas privadas. Outro aspecto
derivado dos investimentos e a formacao e capacitacao de polos de excelencia para
fornecer equipamentos, servicos e tecnologias a Petrobras e outras companhias que
venham a explorar o Pre-sal.
Tambem e preciso considerar que o gas natural advindo da exploracao de petroleo
das jazidas petroliferas do Pre-sal tende a dar a auto-suficiencia e ganhar mais importancia
na matriz energetica brasileira. Por que e um combustivel que exige maiores custos e uma
estrutura sofisticada para viabilizar a sua exportacao por navios devido a sua natureza
gasosa. Assim, aproveita-lo como insumo energetico no Brasil aparece como uma
alternativa interessante para o seu aproveitamento.
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