O grupo Randon: Estratégia e trajetória de expansão a partir do enfoque da teoria evolucionária da firma moreCo-authored: Armando Dalla Costa |
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Economy, História do Brasil, Brazilian Studies, Business & Society, Corporate Social Responsibility, Human Rights, Philosophy of Law, Corporate Governance, Soft Law, Business Ethics, Natural Law, International Law, Ethics and Economics, Sustainability, Virtue Ethics, International Strategy, Global Economic Governance, Business History, Leadership, Global Leadership, International Business, International Management, Organizational Change, Organizational Development, International Trade, Sustainablee Development, Africa, Strategic Management., Business, Business Administration, Automotive Industry, Development Economics, Multinational Enterprises, and Family Firms
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O GRUPO RANDON: ESTRATEGIA E TRAJETORIA DE EXPANSAO A PARTIR DO
ENFOQUE DA TEORIA EVOLUCIONARIA DA FIRMA
Armando Dalla Costa1
Elson Rodrigo de Souza-Santos2
RESUMO
O objetivo desse trabalho e explorar a estrategia e trajetoria de expansao do Grupo Randon. Essa empresa
nasceu como uma pequena oficina mecanica em Caxias do Sul - RS, na decada de 1940, fundada pelos
irmaos Raul Anselmo e Hercilio Randon frente a necessidade de um meio de sustento. Nas decadas de
1950 e 1960 os irmaos souberam aproveitar o cenario favoravel e criaram oportunidades para transformar
a mecanica em industria, tornando-a lider no mercado de implementos rodoviarios. Nos anos 1970 a firma
abriu o capital e se modernizou rapidamente para dar inicio a um novo processo de expansao que foi
abortado pela crise do comeco dos anos 1980 a ponto de forca-la a pedir concordata preventiva. Apos isso
a Randon novamente passou a crescer atraves de empresas nos segmentos de autopecas, consocios,
veiculos especiais e implementos. Simultaneamente, pos concordata, a firma passou a apresentar
caracteristicas de multinacional, nao apenas sendo uma grande exportadora, mas tendo plantas industrials
no exterior e em busca de parcerias e investidores para viabilizar seus pianos.
Palavras-chave: Grupo Randon; empresa familiar; expansao; conglomerado
ABSTRACT
The objective this paper is explorer the strategic and trajectory of expantion of the of the Randon Group.
This enterprise born how garage little in city of Caxias do Sul - RS, in the south of Brazil at decade of
1940, grounded over Raul Anselmo and Hercilio Randon brothers front the need of a means of survive. In
the decades of 1950 and 1960, the Randon brothers known harness the environment and create the
opportunities for transformed the garage in industry, leader in the market of implements for trucks. In the
decade of 1970 the enterprise transformed in S. A. with holding negotiate in stock exchange for viable
itself expantion, damage for crisis of the decade of 1980 that provoked an situation hard to firm. After this
fact, the Randon Group again to growth across of enterprise in the market of car spare, financial services,
special vehicles and implements. Moreover, the Randon Group have vacation for be multinational not
only and great export, but with industrial plants in others countries and search of investors and partner for
growth.
Key-works: Randon Group; family enterprise; expansion; conglomerate
INTRODUCAO
A marca Randon esta presente em boa parte das lonas que cobrem a carroceria das carretas que
transitam pelas rodovias brasileiras. Muitos podem pensar que e a marca de um grande fabricante de lonas
1 Pos Doutor pela Universite de Picardie Jules Verne, Amiens, Franca e Doutor pela Universite de Paris III (Sorbonne
Nouvelle). Professor no Departamento de Economia e no Programa de P6s-Graduacao em Desenvolvimento Economico da
UFPR. Coordenador do Nucleo de Pesquisa em Economia Empresarial (www.empresas.ufpr.br) e-mail: ajdcosta@ufpr.br
2 Mestrando do Programa de P6s-Graduacao em Desenvolvimento Economico pela Universidade Federal do Parana, membro
do Nucleo de Pesquisa em Economia Empresarial - NUPEM. Bolsista do CNPq. E-mail: elsonl29@gmail.com
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ou alguma multinacional estrangeira que produz implementos, mas ambas as prerrogativas estao erradas.
0 Grupo Randon e uma das maiores empresas privadas brasileiras, nascida na cidade de Caxias do Sul -
RS na decada de 1940, pelas maos dos irmaos Raul Anselmo e Hercilio Randon. Inicialmente era uma
pequena mecanica, mas com o passar dos anos passou a fabricar implementos rodoviarios, veiculos
especiais, autopecas e atuar no mercado de consorcios. Atualmente, o Grupo Randon e formado por dez
empresas operacionais, sendo a Randon S. A. Implementos e Participacoes a empresa controladora e nove
controladas diretas: Fras-le S.A., Randon Argentina S.A., Randon Veiculos Ltda., Randon Consorcios
Ltda., Master Sistemas Automotivos Ltda., Jost Brasil Sistemas Automotivos Ltda., Suspensys Sistemas
Automotivos Ltda., Castertech Tecnologia e Fundicao Ltda e Randon Implementos para o Transporte
Ltda. A marca Randon e uma referenda global, possui parceiros estrategicos de classe mundial, situa-se
entre as maiores empresas privadas brasileiras, possui lideranca em seus segmentos, exporta para todos os
continentes e faz parte do Nivel 1 de Governanca Corporativa da BOVESPA, atingindo receita liquida de
R$ 3,1 bilhoes em 2008 (RANDON, 2009).
Em sua historia a Randon apresentou uma capacidade impar de adaptacao, de buscar novas
oportunidades e fortalecer-se frente ao mercado. Essas caracteristicas sao verificadas na propria origem
do Grupo, quando os irmaos Randon alem de realizar consertos ofereciam um produto diferenciado, os
sistemas de freios produzidos artesanalmente na oficina. Depois redirecionaram o foco para a producao de
implementos rodoviarios, especialmente semi-reboques quando se tornaram vitais para a crescente
integracao rodoviaria. Nos anos 1970 os irmaos modernizaram e abriram o capital, preparando um novo
ciclo de expansao, inaugurando uma nova unidade fabril, a divisao de veiculos especiais e comeco da
busca do mercado externo. Os pianos de expansao acabaram sendo adiados pela crise da economia
brasileira do comeco da decada de 1980 forcando a firma a solicitar concordata preventiva. Superada a
crise, o Grupo Randon voltou a enfatizar a necessidade de expansao mas utilizando joint ventures e
parcerias com multinacionais, utilizando as suas competencias para criar empresas ligadas ao grupo e que
sao auto-sustentaveis com atuacao no setor de autopecas, implementos, veiculos especiais e consocios. Ao
mesmo tempo, a enfase no mercado externo e internacionalizacao se tornaram evidentes.
O trabalho esta organizado em quatro partes. A primeira consiste na perspectiva teorica sobre o
crescimento da firma. A segunda aborda o inicio do crescimento do Grupo Randon, entre 1940 e 1970,
quando ocorreu a formacao e ocupacao do territorio nacional. A terceira tern papel central pois busca
explicar como a Randon passou de empresa media para um conglomerado com vocacao para se
transformar numa multinacional, entre a decada de 1970 e 2000. A ultima apresenta o que e o Grupo
Randon hoje, seguida das principals conclusoes.
1 CRESCIMENTO DA FIRMA: CONSIDERACOES TEORICAS
Duas visoes se sobressaem em relacao a abordagem da teoria da firma: evolucionaria e neo-
institucionalista. Segundo Williamson (1999, p. 1096), nome seminal da corrente neo-institucionalista,
ambas as visoes rejeitam a ideia neoclassica, ou ortodoxa como e chamada por Nelson e Winter (2005) -
grandes nomes da corrente evolucionaria - de encarar a firma como uma funcao de producao que
transforma insumos em produtos, constituindo uma caixa preta. Assim, tanto Williamson como Nelson e
Winter enfatizam a necessidade de explorar os aspectos gerenciais e organizacionais. Porem enquanto
Williamson descreve as principals diferencas, o neo-institucionalismo se preocupa com os custos de
transacao, contratos e acoes oportunistas dos agentes, a evolucionaria, por sua vez, percebe a firma como
uma combinacao de competencias, recursos e rotinas que a fazem diferente das demais.
A perspectiva evolucionaria apresenta um arcabouco teorico mais consistente para tratar do
objetivo desse trabalho que e o crescimento do Grupo Randon, considerando a sua capacidade de
adaptacao e competencias que o levaram a se destacar em relacao as demais. Entretanto, a complexidade
do objeto analisado leva a nao se prender a taxonomias, a fim de evitar que aspectos relevantes sejam
3
ignorados. Aspectos como a questao dos custos de transacao entre as empresas do Grupo Randon sao
melhor analisados pelos neo-institucionalistas, mas outros como a questao da empresa familiar sao
tratados por diversos autores3, normalmente nao vinculados com nenhuma destas correntes. Portanto, a
base teorica do trabalho segue uma tendencia evolucionaria, mas nao ignora outras visoes, nem mesmo de
"desgarrados" que tratam do crescimento da firma como Edith Penrose.
A teoria evolucionaria teve o trabalho seminal de Nelson e Winter (2005), publicado
originalmente em 1982, onde argumenta que o termo "evolucionario" e emprestado das ideias basicas da
biologia, indicando a existencia da selecao natural, a genetica organizacional e a preocupacao com
processos de longo prazo e progressives, onde as firmas melhor adaptadas prevalecem refletindo os seus
"genes". Os autores ressaltam o carater neo-schumpeteriano da abordagem evolucionaria, em que
considera o capitalismo uma maquina de mudancas progressivas, impulsionadas pela inovacao. Em
relacao a visao de Schumpeter (1955), presente nos dois primeiros capitulos do livro "The Theory of
Economic Development", em relacao a inovacao na firma, diferencia os "mere manager" dos
"enterprises", os primeiros sao os gerentes responsaveis pela a administracao da firma, os segundos sao
os responsaveis por inovar, reorganizar recursos e impulsionar as mudancas. Entre os autores
"desgarrados" que tambem buscam explicar por que a firma cresce, uma autora classica e Edith Penrose e
seu livro "The Theory of the Growth of the Firm" de 1959, por ser um dos primeiros autores a buscar
explicar esse processo.
Dosi e Winter (2000, p. 4-6) realcam nove fundamentos da abordagem evolucionaria: (i) as
teorias devem ser micro fundamentadas; (ii) o realismo e uma virtude e em certos aspectos necessario;
(iii) os agentes tern uma compreensao imperfeita do ambiente em que vivem e sobre o futuro indicando a
racionalidade limitada; (iv) os agentes permanecem heterogeneos mesmo firente as mesmas informacoes e
oportunidades por que tern uma compreensao limitada ou imperfeita do ambiente; (v) os agentes sao
sempre capazes de descobrir novas tecnologias, conhecimentos organizacionais e adaptar-se a novas
regras de conduta; (vi) a imperfeita adaptacao e variedade de agentes com a interacao coletiva dentro da
selecao do mercado funciona como um mecanismo de selecao, gerando diferentes taxas de crescimento
ou sobrevivencia de diferentes entidades com diversas tecnologias, rotinas, estrategias, etc.; (vii) como
resultado o fenomeno agregado refletido no processo de crescimento e estruturas industrials; (viii) a auto-
sustentacao de formas organizacionais e institucionais sao resultados diretos da acao dos agentes, mas
tambem da acao nao intencional da interacao coletiva e aprendizado; e (ix) a relacao entre o alto nivel de
regularidades manifestado nas instituicoes, regras e formas organizacionais para o baixo nivel do
processo evolucionario e um complexo de co-evolucao atraves dos niveis a escalas de tempo.
Finalmente, em relacao a competicao aparece como uma forma de selecionar as firmas mais
adaptadas ao ambiente. Nesse contexto, Newey e Zahra (2009, p. 97-98) sugerem que a operacao e a
dinamica das competencias tern diferentes, mas complementares papeis na inducao da adaptacao e
evolucao da firma, a medida que incita a necessidade da busca de novos caminhos e oportunidades.
2 ANTECEDENTES, FORMACAO E PRIMEIROS ANOS NA HISTORIA DA RANDON
Raul Anselmo e Hercilio Randon, os irmaos fundadores da firma sao descendentes da segunda
geracao de imigrantes italianos fixados no Rio Grande do Sul, regiao de Caxias do Sul. Abramo Randon,
pai deles, levou a familia para passar alguns anos em Tangara - SC, retornando a Caxias do Sul em 1939,
3 Para maiores informacoes a respeito da sucessao nas empresas familiares ver, entre outros: MARTINS, Ives Gandra da Silva
etal. Empresas familiares brasileiras: perfil e perspectivas. Sao Paulo: Negocio Editora, 1999; GERSICK, Klein et.al. De
geracao para geracao. Ciclos de vida nas empresas familiares: Sao Paulo: Negocio Editora, 1998; BERNHOEFT, Renato.
Empresa familiar. Sucessao profissionalizada ou sobrevivencia comprometida. 2.ed. Sao Paulo: Nobel, 1989; DALLA
COSTA, Armando. Sucessao e sucesso nas empresas familiares. Curitiba: Jurua, 2006.
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onde montou uma oficina mecanica de ferramentas agricolas (MDIC, 2009). Hercilio, o filho mais velho,
em 1943, se ofereceu para trabalhar na oficina de Raymundo Balzaretti com o objetivo de obter
experiencia em mecanica e motores a explosao, logo depois deixou a oficina, mas continuou a aprimorar
suas habilidades em mecanica. Raul Anselmo, em 1940, passou a trabalhar na oficina do pai, onde
permaneceu ate 1948 quando prestou o servico militar obrigatorio (RANDON, 2009b). Nesse meio tempo
os irmaos, sobretudo Hercilio, adquiriram os conhecimentos tecnicos necessarios para montar a Mecanica
Randon, oferecer uma gama de produtos de alta qualidade e diferenciados ao longo das decadas de 1950 e
1960. Essa habilidade desenvolvida pelos irmaos foi caracterizada como o "core knowledge'", definido
por Helfat e Raubitschek (2000, p. 3-4) como a base dos conhecimentos fundamentals para o
desenvolvimento de produtos e servicos.
O espirito empreendedor dos irmaos Randon se manifestou em 1949, quando Raul Anselmo
deixou o servico militar e com o irmao Hercilio montou informalmente a Mecanica Randon junto a
oficina do pai, dedicando-se a producao de ferrarias e concerto de motores e maquinas (RANDON,
2009c). Entretanto, os irmaos desejavam se libertar da egide paterna. Para isso fundaram uma fabrica de
maquinas tipograficas em sociedade com Italo Rossi, mas fracassou em virtude do incendio que destruiu
suas instalacoes em 1951 (RANDON, 2009c). Em virtude do fracasso, os Randon optaram por se dedicar
plenamente a Mecanica, oficializando a sua existencia em dezembro de 1952, tendo como socio o
mecanico de automoveis Primo Fontebasso. Assim, o negocio dos irmaos passou a ser denominado
Mecanica Randon Ltda, contando com um capital inicial de Cr$ 150 mil dividido em tres partes iguais.
A finalidade era formar uma "oficina mecanica, fabricacao e comercio de pecas e consertos em
geral e tudo mais que convier" (em 1954 Fontebasso se retirou da sociedade por motivos de saude)
(MDIC, 20009). Nesse breve periodo, os irmaos Randon incorporaram o que Penrose (1995, p. 33-34)
denomina de "enterprise" (ou empreendedor) definido como "...our purposes it can usefully be treated as
a psychological predisposition on the part of individual to take a chance in hope of gain and, in
particular, to commit effort and resources to speculative activity". Ou seja, os irmaos preferiram se
arriscar na fabricacao de maquinas tipograficas, resultando num fracasso dramatico, mas tentaram
novamente oficializando a existencia da Mecanica, desta vez com vocacao de crescimento. Os irmaos
tambem podem ser caracterizados como empresarios schumpeterianos, definidos por Winter (2004, p. 10-
11) como o individuo (no caso os irmaos) que buscam novos caminhos, promovem inovacoes e
reorganizam os recursos, uma definicao originaria de Schumpeter (1955) sobre o que e uma enterprise.
O primeiro produto de sucesso da Mecanica Randon foi o sistema de freios para caminhoes. A
primeira vista pode parecer estranho uma pequena mecanica se dedicar a fabricacao de um sistema tao
importante para caminhoes, mas dentro da contextualizacao da economia brasileira dos anos 1940 e 1950
passa a fazer sentido. No P6s-Segunda Guerra Mundial o Brasil comecou a sofirer dificuldades no setor
externo, provocadas pela escassez de dolares e levando a uma politica de restricao as importacoes nao
essenciais e de consumo, mantendo a moeda nacional valorizada em nome do controle da inflacao. O
subproduto desse cenario foi impulsionar o crescimento economico e industrial brasileiro ate a decada de
1950 (VIANNA e VILLELA, 2005, p. 26-27). Ao mesmo tempo, a integracao rodoviaria cresceu, assim
como a demanda por transporte. Em termos mensuraveis pela Comissao Mista BNDE-CEPAL (1957), o
numero de caminhoes em circulacao no Brasil aumentou de 115.997, em 1947, para 244.941, em
1952, e o volume de cargas transportadas por caminhoes, em numeros relativos, passou de 100 para
301, entre 1945 e 1953 (MDIC, 2009).
O problema era que esses caminhoes tinham a maioria dos componentes importados, agravado
por duas caracteristicas do transporte brasileiro. A primeira era que os caminhoes se desgastavam ou
quebravam facilmente devido as condicoes extremas de operacao. O segundo os problemas logisticos e o
tempo necessario para entrega das pecas de reposicao originais inviabilizava o seu uso. A solucao era
Ministerio do Desenvolvimento, Industria e Comercio.
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fazer improvisacoes para manter o equipamento em operacao, em que as pequenas mecanicas davam um
jeito de fabricar pecas e componentes. Apartir do governo de Juscelino Kubischek, na segunda metade da
decada de 1950, como parte do Piano de Metas, a industria automobilistica se instalou no Brasil e a
integracao rodoviaria passou a ser a opcao prioritaria (VILLELA, 2005, p. 55-56). Fruto do esforco de
JK, o primeiro caminhao com grande quantidade de componentes fabricados no Brasil foi o Ford F-600 a
gasolina, com motor V8 de 167 cv em 1957 (ANFAVEA, 2006, p. 136-138). Paulatinamente os
caminhoes passaram a ter um alto grau de nacionalizacao, mas tambem incentivando as montadoras a
desenvolverem produtos melhor adequados a particularidades brasileiras. Em paralelo, nasceram as
empresas nacionais de implementos rodoviarios que se aproveitavam do crescimento da frota de
caminhoes e da necessidade de produtos adequados as caracteristicas das estradas brasileiras.
Alem desse ambiente nacional propicio, a Randon tinha a vantagem de estar localizada numa
regiao serrana, de grande fluxo de caminhoes e cercada por estradas toscas. Fatores que levavam os
caminhoes a se desgastarem precocemente e apresentarem falhas mecanicas, especialmente em relacao ao
sistema de freios. Por isso e compreensivel que o primeiro produto de sucesso da Randon tenha sido os
sistemas de freios para caminhoes. Na sequencia foi o mercado de implementos que possibilitou o
crescimento acentuado nas decadas de 1950 e 1960, observado no Quadro 1 pela diversificacao e
sofisticacao dos produtos.
QUADRO 1 - PRODUTOS DA MECANICA RANDON: 1953 - 1970
ANO PRODUTO
1953 Freios a arpara reboques, instalacao de freios emonibus e caminhoes pesados
1955 Prestacao de servico de instalacao de terceiro eixo
1960 Semi-reboques de ume dois eixos para cargas secas e liquidas
1962 Terceiro eixo balancin para caminhoes FNM, semi-reboques carga seca de ume dois eixos
1964 Tan que sobre chassi e terceiro eixo para semi-reboques de 25 toneladas
1965 Carrocerias metalicas
1966 Tanques estacionarios
1967 Semi-reboques comtres eixos, cujo o projeto foi de Hercilio Randon com um sistema de suspensao pioneiro, freios a arpara caminhoes e semi-reboque basculante
1968 Semi-reboques tres eixos carga seca e com eixo movel autodirecional
1969 Fabricacao de terceiro eixo para caminhoes GM e Ford, homologados pelas montadoras
1970 Semi-reboques com tanques isotermicos em ago inoxidavel; graneleiro; furgao de aluminio; cacamba; carregatudo; tanque combinado e de aluminio, tanques estacionarios para 150 mil litros
FONTE: RANDON (2009d)
O portfolio oferecido pela Randon no fim da decada de 1960, como pode ser verificado no
Quadro 1, transformava a denominacao de "Mecanica" em fantasiosa, pois os produtos oferecidos eram
de uma industria de implementos rodoviarios e relacionados como tanques estacionarios. Por um lado, a
diversidade de produtos da Randon e justificada pela assertiva de Newey e Zahra (2009, p. 82), referindo-
se a capacidade da firma reconfigurar o processo de desenvolvimento de produtos atraves da readequacao
do piano de portfolio, por meio do aprendizado e verificacao de novas oportunidades. De outro, Penrose
(1995, p. 31) observa que a firma e governada pelas productive opportunity, onde os enterprises veem
vantagem e, adicionalmente, Penrose (1995, 78-79) defende que os enterprises criam as oportunidades de
expansao. Assim, os irmaos reconfiguram as atividades da "Mecanica" de uma mera oficina e pequena
fabricante de componentes, sobretudo freios, para uma industria de implementos rodoviarios.
Ao mesmo tempo a Randon se expandiu geograficamente, de inicio inaugurando a primeira filial
em Porto Alegre em 1960, seguida por uma serie de pontos de revenda e assistencia tecnica espalhadas
por todo o pais, onde a filial de Sao Paulo inaugurada em 1965, passou a ser a primeira planta industrial
do grupo fora do Rio Grande do Sul (RANDON, 2009b). A motivacao para a "nacionalizacao" do campo
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de atuacao da Randon e justificada por Helfat e Lieberman (2002, p. 728-729) pela busca da ocupacao de
mercados geograficamente separados e permitir a expansao. Outra evidencia do crescimento da empresa e
o salto de menos de uma dezena de funcionarios na sua fundacao, para 300 em 1963 e 615 em 1969
(RANDON, 2009b).
O Grupo Randon se enquadra na definicao de Lanzana e Constanzi (1999, p. 33-34) de empresa
familiar, onde a maior parte do capital e o controle da companhia e exercido por um ou mais membros da
familia. Entretanto, ao longo de sua historia, os irmaos tiveram socios, primeiro Primo Fontebasso que
ajudou a fundar a Mecanica, se retirou em 1954, mas em 1957 passaram a ser socios minoritarios Emyr
Carlos Facchin (guarda-livros), Yalo Jacobus (chefe do escritorio), Luiz Vergani e Vasco Rossetti (chefes
de secao) (RANDON, 2009b). Estes novos socios passaram a evidenciar que os irmaos tinham ciencia de
que o amor possessivo em relacao a empresa poderia mata-la, tal como sobrepor os interesses pessoais
aos da empresa. Em 1970 a Mecanica Randon Ltda deixou de existir e deu lugar a Randon S. A -
Industria de Implementos para transporte (MDIC, 2009), uma sociedade anonima que se preparava para
ter acoes negociadas em bolsa e arrecadar recursos para impulsionar a expansao. Em paralelo, a Randon
comecou a transicao do grupo que Lanzana e Constanzi (1999, p. 33-34) definem como empresa familiar
pequena e de medio porte, de capital fechado e fortemente concentrada na familia, para o grupo de
empresas familiares de maior porte que tendem a ter capital aberto, menor concentracao do controle
acionario nas maos da familia, profissionalizacao da gestao e a emergencia de um conselho
administrativo.
3 MODERNIZACAO E EXPANSAO
Na decada de 1970 com a transformacao da Randon em S. A, os irmaos preparavam a empresa
para uma grande expansao. Em um primeiro momento inauguraram um novo parque fabril em Caxias do
Sul, partindo para o ramo de veiculos especiais e buscando explorar o mercado externo. Boa parte da
confianca dos irmaos Randon se deve ao crescimento da economia brasileira na decada de 1970, primeiro
com o Milagre e, depois, com o segundo Piano Nacional de Desenvolvimento (II PND), elevando a
demanda por implementos rodoviarios e apresentando oportunidades. Entretanto, quando a economia
brasileira entrou em crise no fim da decada de 1970 e inicio de 1980, os pianos de expansao da Randon
foram frustrados pela retracao da demanda e dificuldades financeiras, levando a firma a pedir concordata
preventiva em 1982. Em 1984, a Randon levantou a concordata e deu inicio a novos pianos de expansao
que a transformaram em um conglomerado, atuando nas areas de implementos, veiculos especiais,
consorcios e autopecas. Alem de se transformar numa multinacional brasileira.
3.1 IMPULSO E DESILUSAO
A transformacao da Randon em sociedade anonima em 1970, foi um dos aspectos mais aparentes
da modernizacao e profissionalizacao da gestao. Em 1971 abriu o seu capital visando a captacao de
recursos para os investimentos. Um ano depois aumentou o seu capital social com o apoio de instituicoes
financeiras e, em 1975, alterou a denominacao social para Randon S.A. - Veiculos e Implementos,
novamente aumentou seu capital social com o apoio do Bando Nacional de Desenvolvimento Economico
- BNDE (MDIC, 2009). Simultaneamente, em 1974 inaugurou uma nova fabrica em Caxias do Sul, com
o apoio do BNDE atraves do repasse de recursos efetuado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do
Extremo-Sul - BRDE. Em 1972 efetuou a primeira exportacao tendo como destino o Uruguai,
consistindo em quatro semi-reboques tanques e tres tanques sobre chassis (MDCI, 2009). Em 1973
fundou a divisao de veiculos especiais, em 1974 lancou o caminhao fora-de-estrada Randon RK-424 para
mineracao e construcao civil, viabilizado em parceria com a empresa Sueca Kockums Industri AB que
durou ate 1978 (RANDON VEICULOS, 2009). Em 1976 adquiriu o controle de uma das suas principals
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concorrentes a Rodoviaria S. A., sendo postedormente incorporada ao Grupo, firmou a parceria com a
empresa francesa Nicolas voltada para a producao de veiculos especiais de transporte de pecas industrials
indivisiveis, logo depois desfeita por razoes economicas (MDIC, 2009).
A expansao acentuada da Randon na decada de 1970, pode ser explicada pelo crescimento da
demanda de suas produtos. Em um primeiro momento, segundo Bonelli e Malan (1983, p. 6-7), durante o
chamado Milagre Brasileiro entre 1968 e 1974, a economia brasileira cresceu em media 10,9% ao ano,
liderada pela industria. Posteriormente, o fim do Milagre devido o primeiro choque do petroleo, levou o
governo militar a implantar o segundo Piano Nacional de Desenvolvimento (PND II). Assim, a partir de
1974, o governo passou a financiar investimentos em infra-estrutura, insumos e bens de capital a fim de
aprofundar o processo de substituicao de importacoes, simultaneamente ampliar a capacidade exportadora
do pais tanto de bens primarios quanto de manufaturados (HERMANN, 2005, p. 100-101). Entretanto, o
segundo choque do petroleo no fim da decada de 1970, como observam Bonelli e Malan (1983, p. 21-23),
transformou o endividamento externo em insustentavel, precipitando a crise economica, ou nas palavras
dos autores "o resultado foi uma acentuada retracao economica, onde a industria e a demanda por bens de
capital foi duramente afetada, mas a enfase na exportacoes se manteve".
A crise afetou duramente o Grupo Randon por duas razoes. A primeira e que o portfolio baseado
em implementos rodoviarios e veiculos especiais tern uma demanda diretamente relacionada ao
crescimento economico. A segunda e que a empresa realizou uma montante de investimentos, se
preparando para atender uma expansao de demanda que nao se efetivou. No mercado externo, a Randon
venceu em 1977 os maiores fabricantes de implementos rodoviarios do mundo para fornecer mais de mil
semi-reboques a Argelia (RANDON, 2009c), no valor de US$ 11 milhoes, com apoio do Banco do Brasil
que adiantou US$ 5 milhoes (MDIC, 2009). Estes recursos ajudaram a mitigar as dificuldades financeiras
nos anos seguintes. Mesmo assim, no comeco da decada de 1980, os juros subiram, o endividamento
cresceu e o mercado retraiu, obrigando a Randon a pedir concordata preventiva em 1982.
O crescimento acentuado do Grupo Randon na decada de 1970 nao pode ser explicado apenas
pelo ambiente favoravel. Assim como observa Penrose (1995, p. 78-79), a acao do enterprise nao so
identifica, mas cria as oportunidades para a empresa crescer. Isso e verificado quando a Randon fez
parcerias para oferecer um produto que tern a demanda crescente, no caso os veiculos fora-de-estrada e de
transporte especial, como tambem a busca de recursos para financiar a expansao. Para tanto angariou
recursos na bolsa de valores e recorreu a financiamento oficial, politica essa que tornou-se uma das
estrategias permanentes. Ao mesmo tempo, como ressalta Newey e Zahra (2009), a Randon conseguiu
coordenar e integrar um conjunto de competencias que a diferenciou de suas rivais, refletindo no sucesso
frente a um mercado em evolucao. Um dos fatos que corrobora essa afirmativa foi a incorporacao da
maior rival da Randon na epoca, a Rodoviaria S. A. Por outro lado, na visao de Montgomery (1991, p.
75-76) a firma apresenta um equilibrio dinamico que implica ajustamentos as condicoes internas e
externas, levando-a a diversificar suas atividades, dados seus recursos e oportunidades. Penrose (1995, p.
87) argumenta que e necessario entender a logica interna da firma para compreender a direcao da
expansao. No caso da Randon, os irmaos montaram a empresa tendo como foco caminhoes, inicialmente
o conserto e fabricacao de componentes, posteriormente produzindo implementos rodoviarios. Portanto, e
compreensivel que a fabricacao de caminhoes especiais fosse coerente, pois e muito semelhante a
produzir implementos, principalmente semi-reboques, mesmo que necessitassem de parceiros para sua
viabilizacao.
3.2 RECUPERACAO, REESTRUTURACAO E EXPANSAO
Entre 1982 e 1984, a Randon esteve sob concordata preventiva, mas recebeu o apoio dos seus
fornecedores, clientes e ate do mercado financeiro, o que permitiu saldar as dividas antes do tempo
(MDIC, 2009). A RANDON (2009d) afirma que esse momento dificil e nebuloso serviu para aprimorar
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sua filosofia, levando a construcao de uma nova cultura, aprimorando os metodos, aumentando a
qualidade e racionalizando os custos. Como consequencia desses ensinamentos e trazendo a tona a
questao da empresa familiar, em evidencia com o falecimento de Hercilio em 1986, ocorreu a
reestruturacao organizacional e acionaria do comeco dos anos 1990. A reestruturacao acionaria deu-se em
1992, quando a familia se retirou do controle direto, mas passou a usar a holding familiar denominada de
Dramd Participacoes e Administracao, isolando os conflitos familiares da empresa e abrindo caminho
para atrair investidores e firmar parcerias. Nessa mesma epoca, a Randon passou a formar um
conglomerado ao iniciar uma empresa juridicamente independente, como pode ser verificado no Quadro
2.
QUADRO 2 - PROCESSO DE FORMACAO DAS EMPRESAS DO GRUPO RANDON - 1986-2006
ANO EMPRESA PROCESSO ASSOCIACAO RAMO PRINCIPAL
1986 Master Sistemas Automotivos Ltda Joint venture Rockwell International (atual ArvinMeritor) Sistemas de freios, principalmente para veiculos comerciais
1987 Randon Consorcios Ltda Construcao n/a Consorcios emgeral, especialmente para implementos rodoviarios e agricolas
19941 Randon Veiculos Ltda Construcao n/a Veiculos especiais para mineracao, construcao civile florestal
1994 Randon Argentina S. A. Construcao n/a Fabricacao de implementos rodoviarios
1995 Jost Brasil Sistemas Automotivos Ltda Joint venture JOST-Werke Componentes de acoplamento e articulacao entre veiculo tratore rebocado
1996 Fras-le S. A Aquisicao n/a Materials de friccao, principalmente lonas e pastilhas de freio
1997 Suspensys Sistemas Automotivos Ltda Joint venture ArvinMeritor Eixos e suspensoes para veiculos comerciais
2006 Castertech Tecnologia e Fundicao Ltda Construcao n/a Pecas fundidas
FONTE: Dados extraidos de Randon (2009), quadro construido pelos autores.
NOTA 1 ^m 1994 a Randon Veiculos se transformou numa empresa juridicamente independente, mas existia
como divisao da empresa desde a decada de 1970.
2 A Randon S.A. - Implementos e Participacoes e controladora e fabricante de implementos.
3 A Randon Implementos para Transporte Ltda e a unidade industrial de implementos localizada em Sao Paulo.
Ao longo da sua historia a Randon se mostrou solida, mesmo frente a uma concordata
preventiva, e aprendeu a lidar com a questao do conflito entre empresa e familia. Essas caracteristicas
corroboram a ideia de que e uma firma duradoura, definida pelo consultor especializado em empresas
familiares Renato Bernhoeft (1999, p. 57), como aquelas que permitem fixar bases solidas de principios,
valores, filosofia e posturas coerentes, que permitem a flexibilidade de adaptar-se as intemperies do
mercado. Estas alteracoes sao provocadas por acionistas, concorrentes, clientes, fornecedores e medidas
governamentais. Outra evidencia da forca, respeito e confianca inspirados pelo nome Randon foi ter sido
a idealizadora da Associacao Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviarios (ANFIR, 2009),
fundada em 22 de maio de 1980 por Raul Anselmo Randon, na cidade de Caxias do Sul - RS, tendo como
co-fundadoras os treze principals grupos do setor na epoca: Randon, Rodoviaria, Guerra S/A, Iderol,
Recrusul, Dambroz, Furglas, Massari, FNV-Fruehauf, Trivelatto, Biselli, Cargo-Van e Krone.
As empresas mostradas no Quadro 2 sao classificadas pela Randon em tres grupos. O primeiro
de implementos e veiculos, composto pela Randon (a controladora do grupo e que fabrica implementos),
Randon Implementos para Transporte, Randon Argentina, e Randon Veiculos. O segundo de autopecas e
componentes, formado por Master, Jost, Fras-le, Suspensy e Casterch. Por fim o de servicos financeiros
ou sistemas de aquisicao formado pela Randon Consorcios. Abaixo sao apresentadas cada uma das
presentes no Quadro 2 por ordem cronologica.
9
A Master e uma empresa de capital fechado, situada em Caxias do Sul, RS, sendo o maior
fabricante de freios a ar modelo S-Came e modelo SAC (Simplex Air Came) do Brasil. Foi criada em 24
de abril de 1986, atraves de uma joint venture com a norte-americana Rockwell International, hoje
ArvinMeritor. O capital social esta dividido em 51% pertencentes a Randon e 49% a ArvinMeritor. Na
linha de produtos de freios automotivos para veiculos comerciais (caminhoes, onibus, microonibus e
implementos rodoviarios), a Master e lider no mercado brasileiro e exporta componentes e conjuntos de
freios, atuando tambem no mercado de reposicao. Possui capacidade instalada para producao anual de
600 mil conjuntos de freios e 2.400.000 conjuntos de patins, tendo cerca de 500 funcionarios (MASTER,
2009).
A Randon Consocios Ltda foi criada em 6 de agosto de 1987. O objetivo principal era facilitar a
venda de implementos rodoviarios produzidos pela Randon. Porem ao longo do tempo passou a
administrar o consocio de outras marcas e entrar em novos segmentos. Administra o consorcio de outras
firmas como o Consorcio Nacional Jonh Deere (norte-americana de equipamentos agricolas, desde 1997),
Volare (minibus, desde 2004), Busscar (encarrocadora de onibus, desde 1998), Ferramentas Gerais
(gaucha de maquinas industrials, desde 2003). Alem de atuar com a marca propria Rancon, consistindo
em consocios para Caminhoes multimarcas (desde 1998), Imoveis (desde 1993, mas com a marca Rancon
desde 2000), Automoveis (desde 1993) e Inteligente (compras em geral) (RANDON CONSORCIOS,
2009).
A Randon Veiculos foi transformada em empresa juridica e gerencialmente autonoma em abril de
1994, apesar de operar desde a decada de 1970 como um setor. Possui veiculos operando em mais de 15
paises e e o maior fabricante nacional de veiculos especiais (RANDON VEICULOS, 2009b). Oferece
uma gama de produtos que abrange os segmentos de mineracao, construcao civil e floresta. Inclusive em
2002 passou a atuar no segmento de retroescavadeiras, atraves do modelo RANDON RK 406, ganhadora
do Premio Distincao Industria conferido pela FIERGS - Federacao das Industrias do Estado do Rio
Grande do Sul (RANDON VEICULOS, 2009). Um marco por que e um segmento notadamente
dominando por multinacionais.
A Randon Argentina foi criada em 12 de agosto de 1994 tendo como sede a cidade de Rosario,
Provincia de Santa, se dedica a fabricacao e comercializacao de implementos rodoviarios e outros
relacionados para o mercado argentino (RANDON, 2009d).
A Jost Brasil foi fundada em 31 de agosto de 1995. Em 2001 passou a atuar tambem no
segmento de maquinas agricolas. Possui fabrica em Caxias do Sul - RS, atua como principal fornecedora
de componentes e sistemas para a industria de montadoras de caminhoes e fabricantes de reboques e
semi-reboques. A JOST Brasil e o resultado de uma joint venture com a empresa alema JOST-Werke,
situada em Neu-Isenburg, lider mundial em tecnologia de quinta-roda e um dos mais importantes
fornecedores de autopecas para a industria de caminhoes, semi-reboques e reboques no mercado
internacional (JOST, 2009).
A Fras-le foi fundada em 1954, tendo como atividade principal a producao de materials de
friccao, e a maior empresa da America Latina e uma das lideres mundiais nesse mercado. Foi o primeiro
fabricante de materials de friccao do Brasil a obter certificacao pela norma ISO 9001 e possui tambem a
ISO 14001 e a ISO TS 16949. O seu Centro de Pesquisa e Desenvolvimento e um dos mais bem
equipados do mundo, contando com laboratories quimico, fisico e piloto. Possui fabricas no Rio Grande
do Sul (Brasil), na China e nos Estados Unidos, centros de distribuicao na Argentina e na Europa e
escritorios comerciais nos Estados Unidos, Chile, Europa, Mexico, Emirados Arabes Unidos, Africa e
China. A empresa mantem uma estruturada equipe para atender os clientes nos mais de 80 paises para
onde envia suas mercadorias. Os produtos consistem em lonas e pastilhas para veiculos pesados,
pastilhas, lonas e sapatas para veiculos leves, revestimentos de embreagem, pastilhas e sapatas para
motos, pastilhas para aeronaves, pastilhas e sapatas para trens e metros, lonas moldadas e trancadas, e
placas universais (FRAS-LE, 2009). Em 1995/1996 a Randon adquiriu o controle acionario da Fras-le
10
(FRAS-LE, 2009b), mas a mantem como empresa independente, inclusive recentemente levando-a a ter
acoes negociadas na bolsa e impulsionar a sua internacionalizacao.
A Suspensys nasceu em 1997, quando o setor destinado a producao de eixos e suspensoes da
Randon, deixou de fazer parte da empresa e a Suspensys foi constituida a partir de uma joint venture com
a norte-americana ArvinMeritor com o objetivo de ser um lider global, assim como as socias, no
desenvolvimento e producao de eixos e suspensoes para veiculos comerciais. Em 2002, as atividades da
nova planta fabril foram iniciadas e no ano seguinte ela foi inaugurada.
Atualmente a Suspensys e lider na producao de sistemas de suspensoes, eixos, vigas, cubos,
tambores de freios e suportes para veiculos comerciais (SUSPENSYS, 2009). Fornece produtos para
montadoras de veiculos comerciais, implementos rodoviarios, reposicao e exportacao (SUSPENSYS,
2009b).
A Castertech e a cacula das empresas do Grupo. A construcao da planta industrial iniciou em
2006 e tern capacidade para processar anualmente 30 mil toneladas de pecas fundidas em ferro,
destinadas as empresas do conglomerado, suficiente para suprir pouco menos da metade da sua demanda
(ZERO HORA, 2008).
3.3 QUALANOVAESTRATEGIA?
No periodo de recuperacao e expansao pos-concordata, a Randon adotou a estrategia de se
transformar em um conglomerado de empresas do setor automobilistico, mesmo a Randon Consorcios
tendo como foco facilitar a aquisicao de implementos e veiculos. Por um lado, esse conglomerado possui
empresas juridicamente independentes, lideres ou bem posicionadas no seu segmento e auto-sustentaveis.
De outro, essas empresas tern alguma complementariedade tecnica que permite oferecer os seus produtos
a outras empresas do grupo, apesar de tambem atuarem no mercado. Existem duas linhas de
argumentacao complementares a justificativa dessa formatacao.
A primeira e baseada na ideia expressa por Dosi e Winter (2000, p. 4-6) de que os agentes sao
heterogeneos e desenvolvem competencias e habilidades que os diferenciam dos demais. O sucesso da
Randon no mercado de implementos, especialmente o de semi-reboques, a capacidade desenvolvida pela
empresa de adicionar aos seus produtos componentes que lhes davam maior qualidade e confiabilidade
em relacao a concorrencia. A diversificacao utilizando as competencias desenvolvidas para atender as
necessidades da firma, se transformaram em oportunidades de crescimento e reducao de riscos como e
observado por Penrose (1995, p. 105). A opcao por formar um conglomerado se encaixa no argumento de
Teece (1982, p. 59-60) de que e uma forma de desenvolver competencias, aproveitar oportunidades de
investimento e dar maior eficiencia gerencial e produtiva. Isso pode ser evidenciado no site da empresa
SUSPENSYS (2009) ao argumentar que a Randon produz eixos e outros componentes para serem
utilizados em seus produtos desde sua origem e, portanto, tern experiencia em relacao a esses produtos.
Mas levanta a questao do porque a Randon optou por formar joint ventures com multinacionais para
fabricar componentes que sabia fazer tao bem. A resposta para essa questao tern tres aspectos. O primeiro
e que seriam necessarios maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento para manter os produtos
atualizados frente as multinacionais, especialmente apos a abertura economica da decada de 1990 e
necessidade de competir no mercado internacional. A segunda e que a associacao com multinacionais
eliminava um possivel concorrente que poderia vir se instalar no pais. A terceira e a reducao de riscos de
investimento e acesso a tecnologias de componentes que podem ser usados para dar vantagens
competitivas aos implementos e veiculos produzidos.
A segunda consiste na integracao vertical da firma de reduzir custos de transacao, incertezas e
eliminar a possibilidade de comportamentos oportunistas, aspectos abordados nos trabalhos de Coase
(1937) e Williamson (1971). O exemplo recente desse pensamento esta na formacao da Castertech, que
tern como missao primaria fornecer pecas fundidas para as empresas do Grupo Randon (ZERO HORA,
11
2008), que constitui uma forma de fugir das insegurancas de depender de uma empresa alienigena, tanto
em relacao ao fornecimento quanto a tecnologia empregada. E claro que no futuro a Castertech tende a
vender para empresas externas ao Grupo. Alem do mais no Relatorio Administrativo de 2008, a
RANDON (2009) justifica a dinamica de interacao das empresas como "uma exposicao diversificada e
reduz riscos de concentracao em setores especificos da economia. E quando todos os setores tern
desempenho positivo avancamos da mesma forma. Os resultados deste exercicio justificam estas
colocacoes".
4 VISAO ATUAL
Nos ultimos anos a Randon vem se consolidando como uma das grandes empresas privadas
brasileiras, em fase de expansao como atesta o ex-presidente Raul Anselmo Randon no Relatorio da
Administracao 2008, que "nosso piano plurianual de expansao anunciado em 2005 com visao ate 2009,
esta contemplado em suas metas basicas de expansao, geracao de empregos, geracao de impostos ao lado
da manutencao e ampliacao da lideranca Randon, antecipadamente materializados" (RANDON, 2009).
Alem do mais Raul Anselmo afirma que "recordes em todos os sentidos, metas atingidas e, uma
sinalizacao clara de que um novo ciclo esta se iniciando no processo de internacionalizacao e
globalizacao das Empresas Randon" (RANDON, 2009). O controle acionario do Grupo e exercido pela
Dramd Administracao e Participacoes Ltda que e uma holding familiar, mas nao e negligenciada a
importancia de investidores nacionais e internacionais como mostra a Figura abaixo:
FIGURA 1 - ESTRUTURA ACIONARIA DA RANDON SA. IMPLENTOS E PARTICIPACOES EM 2008
■ Grupo Controlador
□ Investidores Es-
trangeiros
D Pessoas Fisicas
B Pessoas Juridicas
■ Acoes em Tesoura-
ria
□ Investidores Insti-
tucionais
FONTE: Dados extraidos de RANDON (2009), grafico produzido pelos autores.
O senhor Raul Anselmo Randon e o ex-presidente do Grupo por que em 2009 foi concluido o
processo de selecao do sucessor. Segundo a Revista Exame (2009), o processo durou oito anos, os passos
foram: (i) definiu que o sucessor seria da familia; (ii) contratou consultorias especializadas para avaliar o
potencial dos cinco filhos, em que foram avaliados David, Alexandre e Daniel, mas as filhas Maurien e
Roseli nao quiseram participar; (iii) criou um conselho de familiar para discutir as questoes familiares;
(iv) nomeou tres membros externos para a administracao; (v) David foi o candidato do consenso dos
acionistas, pesando a capacidade de dialogar com diversos publicos e trabalhar em equipe, Alexandre
ficou como vice-presidente e Daniel como diretor-superintendente da Fras-le. A principal missao da nova
12
direcao e aprofundar a expansao e internacionalizacao da empresa.
O Quadro 3 mostra a origem da receita por empresa em que e perceptivel que mesmo com o
esforco para a diversificacao, individualmente a firma que origina o maior percentual de receita continua
sendo a de implementos rodoviarios. Entretanto, em termos globais como mostra a Figura 2, a receita da
Randon e bem dividida entre as empresas de autopecas e componentes ante a de implementos e veiculos,
ao mesmo tempo a receita de consocios e percentualmente baixa.
QUADRO 3 - COMPOSICAO DA RECEITA DO GRUPO RANDON EM 2008
EMPRESA RECEITA1 CONS OLID AD A PAR IK IPC AO ACIONARL4 DO GRUPO RANDON (EM %)
(KM MI 1)1 KIMS) EM%
Randon S. A Implementos e Participacoes (controladora) 1.138.406 37,20 100,00
Randon Implementos para Transporte Ltda 169.357 5,50 99,99
Master Sistemas Automotivos Ltda 300.984 9,80 51,00
Randon Veiculos Ltda 116.396 3,80 99,99
Fras-Le S. A 411.826 13,50 45,22
Jost Brasil Sistemas Automotivos Ltda. 150.792 4,90 51,00
Suspensys Sistemas Automotivos Ltda 660.076 21,60 22,883
Randon Administradora de Consorcios Ltda 45.054 1,50 99,57
Randon Argentina S. A 66.587 2,20 99,99
Castertech Ltda 2 n/a n/a 99,99
TOTAL 3.059.478 100,00
FONTE: RANDON (2009)
NOTA: 1 Sao consideradas apenas as vendas externas as empresas do conglomerado Randon.
2 A Castertech e uma empresa criada para fornecer pecas para as empresas do conglomerado Randon. Por isso
nao aparece na receita consolidada.
3 Possuioutros 53,18% das suas acoes da Master Sistemas Automotivos Ltda.
FIGURA 2 - RECEITA DO CONGLOMERADO RANDON POR SEGMENTO EM 2008
O Implementos rodovia-
rios, ferroviarios e ve-
iculos especiais
^ Auto pecas e sistemas
n Servicos e outros
FONTE: RANDON (2009)
As participacao do mercado externo que comecou na decada de 1970 ganhou muita importancia
ao longo dos anos, especialmente como forma da empresa nao ficar excessivamente dependente do
mercado brasileiro. No Quadro 4 e perceptivel que a Randon estruturou uma rede mundial de escritorios,
unidades montadoras e ate mesmo plantas industrials para trabalhar com o mercado externo.
13
QUADRO 4 - ABRANGENCIA DAS OPERACOES DO GRUPO RANDON - 2008
PAIS EMPRESA/CIDADE TIPO DEUNIDADE
Brasil GuaruUios — Sao Paulo Caxias do Sul — Rio Grande do Sul Matriz Matriz
Africa do Sul Jo h ann e s burg Escritorio internacional
CtpI s pn IcttpTi ph Pscntono intprnncionnl j_LLL L^LLLClKsLys uu1
Argelia A TCI el Umdade montadora
Argentina T^ttis-Ip rSnri A/Tart in — Provinpin Hp Rnpnos Aitps^ Cpntra Hp Histnbmpno TTmdndp industrial
Chile Pspntono intptnncionnl j_LLL L^LLLClKsLyj uu1
China Fras-le (Pinghu — Provincia de Zhejiang) Fras-le (Shangai - Provincia de Zhejiang) Umdade industrial Escritorio internacional
Dubai Jebel Ali Free Zone Escritorio internacional
Randon (Maini - Florida) Escritorio internacional
Estados Unidos Fras-le (Farrnington Hills - Michigan) Centra de distribuicao
Fras-le (Prattville - Alabama) Unidade industrial
India n/a Escritorio internacional
Marrocos Casa Blanca Unidade montadora
Mexico Cidade do Mexico - DF Escritorio internacional
Quenia Nairobi Unidade montadora
FONTE: Dados extraidos da RANDON (2009). Quadro produzido pelos autores.
AFigura 3 mostra as exportacoes do conglomerado Randon por bloco economico em 2008. Nao
surpreende que a maior parte das exportacoes sejam destinadas ao Mercosul e Chile pelos acordos de
livre comercio, proximidade geografica, compatibilidade tecnica e cultura de operacao. A Africa demanda
mais semi-reboques e produtos prontos e, por isso, existem unidades montadoras em paises do continente
como mostra o Quadro 2. O NAFTA, especialmente os Estados Unidos, e a Europa demanda mais
autopecas por que e um nicho de mercado relativamente facil para a Randon penetrar, tanto que a Fras-le
mantem uma fabrica em territorio norte-americano.
FIGURA 3 - DISTRIBUICOES DAS EXPORTACOES DO GRUPO RANDON POR BLOCO ECONOMICO EM 2008
America do Sul e Central
Africa
Europa
Mercosul e Chile t
Nafta [
Outros
0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 35,00% 40,00%
FONTE: Dados extraidos de RANDON (2009), grafico construido pelos autores.
14
CONCLUSAO
Esse trabalho explorou a estrategia e trajetoria de expansao do grupo Randon, desde sua origem,
uma pequena oficina mecanica fundada por dois irmaos ate o quadro atual, em que e um conglomerado e
uma das maiores empresas privadas brasileiras. Devido as limitacao de espaco e tempo, nao foi possivel
tratar de aspectos relevantes desta firma, como o seu processo de internacionalizacao, relacao com o
Estado brasileiro e as questoes relacionadas a gestao e sucessao das empresas familiares. Como o foco do
trabalho estava voltado para o crescimento da firma, tres aspectos se sobressaem no caso da Randon.
O primeiro e a capacidade dos irmaos Randon transformarem as habilidades e conhecimentos
adquiridos na juventude para produzir equipamentos diferenciados e com vantagens competitivas sobre os
concorrentes. Mais tarde, a medida que a empresa cresceu, esses conhecimentos sao fundamentals para
diferenciar a Randon das demais industrias de implementos rodoviarios. Como destaca a teoria
evolucionaria, estes conhecimentos foram apropriados pelos novos trabalhadores entrantes na Randon e
permitiram, via pesquisa, lancamento de novos produtos e joint ventures que a firma mantivesse e
aumentasse seu market share frente aos concorrentes.
O segundo e a capacidade da Randon observar as mudancas no cenario ao seu redor e se adaptar,
buscando novas oportunidades de crescimento. No processo de sua evolucao, pode-se destacar tanto a
diversificacao de produtos, como a estrategia de ocupacao do mercado nacional, o lancamento constante
de novos produtos e inovacoes e, no periodo mais recente, sua internacionalizacao. Neste caso seria
interessante analisar com mais profundidade como se deu este processo que iniciou pelas exportacoes a
paises vizinhos para chegar ao estagio mais avancado, que e a ocupacao dos 'mercados maduros' da
America do Norte e Europa, nao so com filiais comerciais, mas tambem com plantas industrials.
Por fim, outro aspecto que merece estudos complementares e a forma como a Randon lidou com
a questao da empresa familiar. Merece destaque, neste caso, a formacao de um conselho familiar para nao
deixar que as questoes da familia nao interfiram no dia-a-dia da gestao dos negocios.
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